• Caroline Rodrigues

Solução

“- [...] Que quer dizer “cativar”?

- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa criar laços.”

O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupéry, 1943



A banca fiscalizadora de comportamentos terrenos era formada pelos fiscais Afonso e Eusébia. Foi-lhes dada a tarefa de implementar desastres naturais bem distribuídos sobre o globo terrestre. Depois de ver que as pessoas, habitantes daquele lugar, precisavam de lições para se comportar, o chefe Deuso Grandioso mandou que eles executassem a função. Ele argumentou que não queria ter que fazer um meteoro cair na Terra novamente, como teve que fazer quando a situação ficou insustentável com os dinossauros.


Assim, os dois tiveram a liberdade de criar os mais diferentes tipos de dificuldades advindas da natureza. O objetivo era fazer com que os seres humanos ponderassem sobre a sua condição toda vez que eles tivessem que enfrentar uma delas. Depois de implantar diversas catástrofes da natureza em todas as partes do mundo, eles chegam a uma porção de terra que viria a ser conhecida por Brasil.


― Vamos colocar o quê, aqui? Terremoto? Tsunami? ― pergunta Afonso.


― Hum, não sei...


― Eu tenho uma sugestão. Como aqui tem muitas árvores, podia acontecer algo que as fizesse cair sobre as pessoas quando elas estivessem passando.


― Nossa, tu tá inspirado hein! Não sei, já tô meio deprimida com tanta tragédia. Estava pensando… E se a gente deixasse este sem nada?


― Como assim? Sem nada?― ele exclamou para aquela sugestão inusitada de Eusébia.


― Ora, nada.


― Mas e o Grandioso? O que vamos dizer?


― A gente diz que não percebeu, que passou batido...


― Ai, não sei, não.


― Poxa, cadê a tua piedade? Em todo lugar que essas pessoas viverem, vão sofrer imensamente com raios, furacões, e tudo o mais que nós inventamos. A gente podia deixar um refúgio para eles!


― Mas e se o Grandioso descobrir?


― Ele não vai descobrir!


― Tá bom, mas só nessa parte aqui. Aqui no cantinho a gente já coloca terremoto.


― Combinado.


Terminado o trabalho, eles foram imediatamente comunicar ao seu chefe.


Grandioso tinha muito poder e sabia de tudo o que acontecia. Entretanto, mesmo ciente de que seus funcionários não haviam executado a tarefa da forma como ele queria, teceu elogios e autorizou a implementação do projeto.


Os anos e as décadas passaram. Afonso e Eusébia observavam os resultados da tarefa realizada. Viram que as catástrofes que inventaram criavam uma espécie de ligação entre aquelas pessoas que passavam pelo problema. Perceberam que elas se fortaleciam e se apoiavam umas nas outras por conta das dificuldades. Ao mesmo tempo, olhavam, com tristeza, para aquele lugar em que haviam imaginado se tornaria um paraíso. Havia algo de errado, mas eles não sabiam apontar exatamente o quê.


Incomodados com a sensação, tomaram coragem e procuraram o Grandioso para confessar o que haviam feito. Disseram que, além de não suportar mais viver a mentira, viam que o seu refúgio não tinha dado certo. Parecia que aquele lugar vivia sob uma espécie de feitiço que não deixava com que as pessoas vivessem sem preocupações. Comentaram sobre os surpreendentes efeitos dos terremotos e furacões nos outros lugares, onde as pessoas pareciam viver vidas melhores do que naquele lugar que eles haviam poupado.


O Grandioso ouviu-os atentamente e depois tomou a palavra para esclarecer:


― Eu sempre soube que vocês não tinham executado a tarefa da forma como pedi. Então, antes de implementar, eu mesmo incluí uma catástrofe natural. Decidi que ali a maioria das pessoas seria incapaz de sentir empatia. E esse traço se acentuaria caso essa pessoa ganhasse algum tipo de poder dentro da comunidade. Sendo assim, se ela se tornasse uma governante, haveria uma grande chance de ela se esquecer dos seus deveres e promessas toda vez que ela visse uma oportunidade para favorecer a si mesma. Só que eu percebi que, com o passar do tempo, mesmo pessoas sem nenhum poder ou influência dentro da sociedade passaram a desenvolver essa característica.


― Mas isso é terrível! ― disse Eusébia.


― Sim, na verdade, eu tenho uma notícia para vocês.


Eles olhavam com aflição para Grandioso enquanto ele se preparava para falar.


― A insubordinação de vocês causou isso. A situação se agravou demais, está descontrolada. Soube, recentemente, que algumas pessoas chegaram ao ponto de pedir a volta de torturadores. Por isso, eu decidi que é chegada a hora.


Assim que terminou de falar, seu braço se ergueu devagar e o dedo apontou para o horizonte. Afonso e Eusébia viraram seus rostos para onde ele apontava. O rosto da fiscal se contorceu numa onda de pavor e logo seus olhos arregalados marejaram. Ela continuava olhando enquanto a bola de fogo refletia numa lágrima que caía de seu rosto.


[texto originalmente postado no meu antigo blog em 31/05/2018]

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