• Caroline Rodrigues

Remorso

Texto publicado no meu antigo blog em 10/10/2018.

― Ele nem sentiu remorso, mãe! ― ouvi meu filho dizer entre soluços, segurando o que restava do cavalo de brinquedo que ganhara no dia anterior. ― Era o meu brinquedo favorito, agora ele tá morto.

Um menino havia pego seu cavalo produzido com EVA e um cabo de vassoura para o desfile farroupilha e feito com que a cabeça se desgrudasse do corpo. A espuma branca do forro saía por entre os fios de lã da crina improvisada enquanto ele me contava que tinha agarrado o cabo e se vingado, levando uma vassourada logo em seguida também. Eu não presenciei a cena porque havia deixado ele na pracinha do condomínio brincando; só pude ouvir o grito.

Quando ele se queixou do menino que não sentia remorso, uma sucessão de cenas me invadiu.

Fiquei com vontade de contar para ele que uma vez eu vi uma pessoa furando uma fila de carros durante o desabastecimento de gasolina. Havia uns vinte veículos na fila e a pessoa que dirigia aquela moto estacionou perto das bombas. Conversou com o frentista e pareciam amigos. Saiu de lá com um galão cheio. O sorriso não demonstrava remorso.

Lembrei que poderia falar para o meu filho sobre um amigo do meu pai que pediu uma boa quantia de dinheiro emprestado e nunca devolveu. Esse cara fez um festão de quinze anos para a sua filha com o dinheiro, coisa que eu não tive nos meus 15 anos. Não deve ter sentido remorso nenhum enquanto se empanturrava de bolo e brigadeiro.

Teve também a vez em que um homem passou a mão no meio das minhas pernas, por cima da calça. Eu tinha uns 12 anos e ele parecia muito simpático. Convidou eu e minhas primas para ajudá-lo a catar copos de plástico em um rodeio. Enquanto uma de nós ia em busca dos tesouros, ele escorregava uma mão boba, sem remorso algum.

Quem sabe eu contava para ele sobre uma amiga minha separada que criava o filho sozinha? Digo sozinha porque o pai buscar para passear no domingo não conta. Ela vivia brigando para receber a pensão que o ex-marido devia. Havia uma grande quantidade de desculpas, mas nenhuma de remorso.

Cogitei falar para ele sobre as filas nos hospitais, a falta de material nas escolas, os buracos nas ruas, ou o esgoto a céu aberto, em contraste com os indefectíveis desvios de dinheiro promovidos pela corrupção.

― Algumas pessoas são assim, meu filho. Elas não sentem remorso.

Foi o que eu consegui elaborar. Aquelas lágrimas já pareciam pesadas demais para um corpo tão pequeno. A dor do cavalinho morto parecia maior que a do vergão no braço. Em mim, doía mais a incapacidade de revelar que aquela seria a primeira vez, mas não a única, em que ele se depararia com o ser humano.

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