• Caroline Rodrigues

Quando o Tratamento do Coronavírus se Perde na Tradução


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Tradução deste artigo publicado no The New York Times, escrito por Emma Goldberg, em 17 de abril de 2020. Ele trata da dificuldade no tratamento de pacientes com Covid-19 nos EUA que não têm o inglês como primeira língua e dependem de interpretação para se comunicarem no atendimento hospitalar.

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Recentemente, o Dr. Alister Martin olhou para seu paciente, um homem hispânico que não falava inglês, e deu a notícia de que ele precisaria ser entubado. Lutando para manter a voz calma, o Dr. Martin, do Massachusetts General Hospital, em Boston, sugeriu que ele ligasse para sua esposa. E disse ao paciente, um motorista de ônibus, pai de três crianças, que ele deveria se despedir e deixar uma mensagem de carinho, só por via das dúvidas.

Conversas assim agora são parte da rotina diária do Dr. Martin, mas nem por isso ficam mais fáceis. O que torna ainda mais difícil é que cada informação é repetida pelo menos duas vezes: a maioria dos pacientes com Covid-19 do Dr. Martin não fala inglês, então eles se comunicam através de um intérprete pelo telefone.

Por causa da falta de equipamento pessoal de proteção nos hospitais do país todo, poucos intérpretes clínicos conseguem atender pessoalmente pacientes com Covid-19, como normalmente fariam. A maioria das interpretações é feita remotamente. Comunicar-se através de intérpretes dobra ou triplica a duração de uma interação médica, somando confusão e ansiedade novas a situações que já são estressantes para pacientes e seus familiares. E as condições do tratamento da Covid-19 — o ritmo acelerado de evolução dos casos, o desejo dos trabalhadores de limitar a duração de exposição a pacientes — criam inúmeros obstáculos a uma interpretação eficaz.

"Estamos vendo uma degradação geral na qualidade do tratamento dispensado a pacientes que não falam inglês como primeira língua", disse o Dr. Martin.

O Dr. Martin falou que o surto de coronavírus multiplicou as barreiras logísticas da interpretação médica. As salas dos hospitais são barulhentas, cheias de sons de cilindros de oxigênio e conversas urgentes da equipe. Todos usam máscaras, as vozes abafadas. Trabalhadores da área médica estão tentando ficar a um metro e meio de distância dos pacientes quando possível.

"O oxigênio de alguém pode estar reduzindo e eu tenho que conseguir um intérprete ao telefone, aguardar na linha, inserir um código de acesso, informar onde estou", disse o Dr. Martin. "É difícil para o paciente. Imagine-se em uma sala cheia de barulho usando uma máscara soprando oxigênio no seu rosto a 15 litros por minuto e se sentindo péssimo. Não tem como você entender as coisas da mesma forma".

Tipicamente, ele explica aos pacientes o procedimento médico exato antes da entubação e os instrui a pensar em memórias felizes, o que ele chama de "férias antes da sedação". Com um intérprete ao telefone, ele e sua equipe estão pressionados a usar as palavras com mais moderação.

Os intérpretes também dizem que a qualidade do trabalho padece quando se comunicam com pacientes de forma remota ao invés de pessoalmente e usando linguagem corporal ou lendo expressões faciais. "Pequenas coisas, como um tapinha no ombro ou segurar a mão do paciente, em geral, fazem uma grande diferença", diz Cinderella Lee, uma intérprete de cantonês do Sutter Health, em São Francisco.



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Lee diz que, sob circunstâncias normais, os pacientes que não são proficientes em língua inglesa têm membros da família auxiliando na tradução e servindo como defensores. Mas como os hospitais barraram visitantes, os pacientes estão sozinhos. Alguns pacientes com quem Lee trabalha são idosos e "não entendem porque as pessoas queridas não os visitam", ela disse.

David Velasquez, um estudante de medicina de Harvard, disse que costuma ser chamado para traduzir para pacientes de língua espanhola durante rotações clínicas. Depois de testemunhar lapsos de comunicação com pacientes que não são proficientes em inglês, ele teme por seus familiares imigrantes fora de Los Angeles, um dos quais já contraiu o novo coronavírus.

"A maioria dos médicos não fala o idioma deles", disse o David. "Eu me preocuparia com o processo de alta. Uma coisa é informar sobre o que eles devem fazer no hospital. Outra, é educar os pacientes sobre as precauções a serem tomadas depois de sair e sobre como proteger os entes queridos".

Os desafios de tratar pacientes com Covid-19 que não são proficientes em inglês são particularmente problemáticos para os médicos por causa das taxas desproporcionais de hospitalização entre negros e hispânicos.

De acordo com dados divulgados na semana passada, os hispânicos compreendem 34 por cento das mortes por coronavírus na cidade de Nova Iorque, porém representam somente 29 por cento da sua população. Líderes da cidade sugeriram que isso reflete parcialmente a representação maciça de hispânicos dentre os trabalhadores essenciais; um estudo do controlador da cidade [uma espécie auditor] descobriu que as minorias representam 75 por cento da força de trabalho na linha de frente, incluindo atendentes de mercado e zeladores.

Massachusetts divulgou dados étnicos e raciais limitados sobre o vírus, mas grandes agrupamentos de infecção foram relatados em Chelsea, onde há muitos imigrantes, e nas comunidades predominantemente negras, latinas e de imigrantes em Boston, incluindo Hyde Park e Mattapan. Em torno de 40% dos pacientes com Covid-19 do Hospital Geral de Massachusetts são hispânicos, de acordo com autoridades do hospital, 80% dos quais têm espanhol como principal idioma.

"Ela tornou-se uma epidemia negra e parda por todo o país", disse o Dr. Joseph Betancourt, responsável por inclusão e equidade do hospital. "Mais uma razão para prestarmos atenção à linguagem".

Na Cambridge Health Alliance, em Massachusetts, quase metade dos 126 mil pacientes do sistema de saúde primário tem proficiência limitada em inglês. A Alliance tem 100 intérpretes de equipe que geralmente trabalham nas salas de emergência e nas clínicas comunitárias. Vonessa Costa, diretora de assuntos multiculturais e atendimento ao paciente, disse que em torno de 99 por cento do trabalho de interpretação é remoto agora, com a equipe de interpretação lidando com 1.300 ligações por dia.


Essas circunstâncias provocam enorme estresse em intérpretes médicos, disse Vonessa, especialmente naqueles que vivem em comunidades de imigrantes de Boston que foram atingidas em cheio pelo surto. Semana passada, uma intérprete ficou transtornada depois de passar 45 minutos ao telefone ajudando uma jovem senhora falante de espanhol a se comunicar com a equipe do hospital sobre dois familiares em estado crítico da doença, seu parceiro e sua mãe.

"Há trauma ao se interpretar trauma", disse Vonessa. "Alguns intérpretes do nosso departamento têm familiares que foram hospitalizados também. Eles ficam muito chocados com as situações que precisam interpretar e com a desolação das suas comunidades".



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O Dr. Jorge Rodriguez, médico no Brigham and Women’s Hospital, disse que a pandemia de coronavírus está expondo, e agravando, uma condição pré-existente do sistema de saúde do país: as disparidades no cuidado de pacientes que não falam inglês. Um estudo de 2015 da Joint Commission [uma organização sem fins lucrativos nos EUA] demonstrou que pacientes com proficiência limitada em inglês vivenciaram resultados de saúde adversos em taxas notoriamente mais altas do que as de falantes de inglês.

"Sabíamos que pacientes com proficiência limitada em inglês tinham acesso reduzido ao cuidado, mais visitas da emergência, internações mais longas e piores resultados clínicos", disse o Dr. Rodriguez. Ele complementou que espera que o impacto desproporcional da pandemia nas populações hispânicas impulsione as instituições médicas a considerar como as barreiras linguísticas afetam o cuidado ao paciente.

Algumas instituições médicas já começaram a repensar seus serviços de interpretação em meio ao surto de coronavírus. O Dr. Betancourt disse que, mês passado, o Hospital Geral de Massachusetts criou um registro de membros da equipe de linha de frente que falam múltiplos idiomas. Agora, o hospital pretende designar um médico falante de espanhol para cada equipe médica sempre que possível, para que pacientes possam confiar em seus médicos para a interpretação ao invés de ter que usar serviços remotos.

Vonessa disse que a Cambridge Health Alliance identificou todos os pacientes que requerem interpretação face-a-face ao invés de remota, como pessoas com deficiências auditivas que não usam a Língua de Sinais, e alocou equipamentos de proteção pessoal para intérpretes in loco. A prestadora de cuidados de saúde começou oferecendo instruções de alta em árabe, nepali e outros idiomas, indo além das traduções de espanhol, português e língua crioula haitiana que já oferecia. E estão considerando distribuir microfones para os pacientes quando for necessário amplificar a voz deles para os intérpretes.

Mas enquanto a organização de Vonessa Costa corre para melhorar seus serviços de interpretação, ela se preocupa com os milhões de outros pacientes no país que não são proficientes em inglês e que estão sofrendo para acessar o sistema. "Uma pandemia não é o momento de construir sistemas de trabalho", ela disse.

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