• Caroline Rodrigues

Por que tão poucos homens leem livros escritos por mulheres?

Este texto é a minha tradução de um artigo publicado no The Guardian, que eu achei maravilhoso. Espero que vocês também gostem da leitura.


Mary Ann Sieghart, autora do texto.
MA Sieghart
Não importa se é Austen ou Atwood, as Brontë ou vencedoras do Booker, os dados mostram que os homens são relutantes em ler mulheres - e isto tem implicações no mundo real

Sex 9 jul 2021


A assinatura no topo deste artigo é MA Sieghart, não Mary Ann. Por quê? Porque eu realmente quero que os homens também leiam. Autoras, através dos séculos, deste as irmãs Brontë passando por George Eliot até JK Rowling, sentiram-se obrigadas a disfarçar seu gênero para persuadir meninos e homens a lerem seus livros. Mas agora? Isso é ainda, de fato, necessário? A triste resposta é sim.


Para o meu livro The Authority Gap (em tradução livre, O vão da credibilidade), que analisa por que as mulheres ainda são menos levadas a sério que os homens, eu encomendei uma pesquisa com o Nielsen Book para descobrir exatamente quem estava lendo o quê. Eu queria saber se as autoras não eram somente consideradas com menos credibilidade do que os homens, mas também se elas estavam sendo lidas pelos homens, para começo de conversa. E os resultados confirmaram minha suspeita de que os homens estavam desproporcionalmente menos suscetíveis a, até mesmo, abrir um livro escrito por uma mulher.


Para as 10 autoras mais vendidas (que inclui Jane Austen e Margaret Atwood, bem como Danielle Steel e Jojo Moyes), somente 19% de seus leitores são homens e 81%, mulheres. Mas para os 10 autores mais vendidos (que inclui Charles Dickens e JRR Tolkien, bem como Lee Child e Stephen King), a divisão é muito mais equilibrada: 55% homens e 45% mulheres.


Em outras palavras, as mulheres são preparadas para ler livros escritos por homens, mas pouquíssimos homens são preparados para ler livros escritos por mulheres. E a autora no top 10 que teve a maior audiência entre leitores homens - a escritora de suspense LJ Ross - usa suas iniciais, então é possível que os caras acharam que ela era um deles. O que isso nos diz sobre o quão relutante os homens estão em conceder credibilidade igualitária - intelectual, artística, cultural - para mulheres e homens?


Margaret Atwood, uma escritora que deveria estar nas prateleiras de qualquer pessoa que se importa com literatura ficcional, tem um público leitor que é somente 21% masculino. Os também vencedores do Booker Prize Julian Barnes e Yann Martel têm quase o dobro (39% e 40%). E não é que as mulheres são piores em escrever ficção literária. Todos os cinco dos cinco romances literários mais vendidos de 2017 foram escritos por mulheres e nove dos top 10. E não é que os homens não gostem de ler livros escritos por mulheres quando eles de fato abrem um; na verdade, eles ligeiramente os preferem. A avaliação média que os homens dão para livros escritos por mulheres no Goodreads é de 3,9 em 5; para livros escritos por homens, é de 3,8.


Olhando para os livros de não-ficção, que é minimamente mais lido por homens do que por mulheres, o padrão é parecido, embora não tão marcante. Os homens ainda leem muito mais autores do que autoras, mas a discrepância não é tão grande porque as mulheres tendem a fazer o mesmo em favor das autoras. Mas ainda há bastante diferença. As mulheres estão 65% mais propensas a ler um livro de não-ficção escrito pelo sexo oposto do que os homens estão. Isso tudo sugere que os homens, consciente ou inconscientemente, não concedem a autoras tanta credibilidade quanto concedem a autores. Ou eles se baseiam no pressuposto preguiçoso de que os livros escritos por mulheres não são para eles, sem nem ao menos experimentá-los para ver se isso é verdade.


Por que isso importa? Para começar, isso reduz as experiências de mundo dos homens. "Eu sei disso há muito tempo, que os homens simplesmente não estão interessados em ler nossa literatura", me contou Bernardine Evaristo, a romancista vencedora do Booker Prize, em uma entrevista para o The Authority Gap. "A nossa literatura é uma das formas pelas quais nós exploramos narrativa, exploramos nossas ideias, desenvolvemos nosso intelecto, nossa imaginação. Se estamos escrevendo histórias de mulheres, estamos falando sobre as experiências das mulheres. Nós também falamos sobre as experiências masculinas da perspectiva feminina. E, então, se eles não estão interessados nisso, acho que é muito prejudicial e extremamente preocupante".


Se os homens não leem livros escritos por e sobre mulheres, eles não conseguirão entender nossas psiques e nossas experiências vividas. Eles continuarão a ver o mundo através de uma lente quase que completamente masculina, com a experiência masculina como padrão. E esse foco reduzido afetará nossas relações com eles, como colegas, como amigas e como parceiras. Mas isso também empobrece as escritoras mulheres, cujo trabalho é visto como um nicho ao invés de fazer parte do mercado principal se é consumido principalmente por outras mulheres. Elas ganharão menos respeito, menos status e menos dinheiro.


A romancista Kamila Shamsie participou de diversas comissões julgadoras e testemunhou exatamente esta assimetria. "As avaliadoras mulheres defendem livros escritos tanto por homens quanto por mulheres", ela me disse. "E os avaliadores homens majoritariamente defendem livros escritos por outros homens".

Dolly Alderton é uma escritora muito bem sucedida, cujo livro de memórias Everything I Know about Love (em tradução livre, Tudo o que sei sobre o Amor) venceu o National Book Award de 2018 como melhor autobiografia. Ainda assim, no Reino Unido, pelo menos, os homens não demonstraram quase nenhum interesse nele. Toda jornalista de revista ou jornal enviada para entrevistá-la era mulher e foi, como ela me disse, "comercializado e visto e recebido como algo extremamente de nicho por força do meu gênero. Contudo, uma experiência feminina não é uma experiência de nicho; é de interesse comum universal".


No entanto, quando ela foi fazer uma turnê de publicidade na Dinamarca, foi bastante diferente. Ela contou ao jornalista homem que tinha sido enviado para entrevistá-la que ele era o primeiro. "Ele não conseguia acreditar por ser tão estranho. Ele tinha em torno de 20 anos e disse que ele e seus amigos leem livros de memória ou ficção escritos por mulheres na mesma proporção que leem os escritos por homens". As coisas podem ser diferentes. E é um problema muito fácil de ser solucionado pelos homens. Tudo o que eles têm que fazer é procurar ativamente por livros escritos por autoras mulheres.


Se os homens estão descrentes de que as mulheres escreverão sobre assuntos que os interessa, eles poderiam experimentar a Pat Barker sobre a primeira guerra mundial ou a Hilary Mantel sobre as maquinações da corte de Henrique VIII. Assim que tiverem se acostumado, eles podem até descobrir que as obras se transformam em histórias humanas ao invés de femininas de nicho - e de que eles gostam.


Os homens podem ganhar muitíssimo ao ampliar suas mentes e seus gostos. Só porque um livro é escrito por uma mulher ou é sobre mulheres não significa que não tenha nada a oferecer para eles. O livro abre os olhos para como é viver como mulher no mundo, o primeiro passo para aprender empatia. E isso pode ajudar a estourar a bolha na qual muitos homens têm, inadvertidamente, vivido, permitindo que novos pensamentos e percepções brotem. Não é para isso que a arte serve?


O livro The Authority Gap de Mary Ann Sieghart é uma publicação da Doubleday.


Leia o artigo original aqui.

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