• Caroline Rodrigues

Por que as mulheres (ainda) alteram o nome?

Atualizado: Mar 9

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Este mês estive no Posto da Polícia Federal para renovar meu passaporte. No guichê ao lado estavam um senhor, uma mulher mais jovem que ele e uma menina de uns sete anos. Pela conversa, entendi ser o avô da criança. Enquanto a minha atendente conferia os dados, era possível ouvir que a atendente ao lado explicava que eles precisariam pedir uma alteração judicial da certidão de nascimento da menina para alterar o nome da mãe e que não seria possível fazer a alteração ali. Eles argumentavam que tinham receio de não poder entrar no país (não lembro qual) porque o nome da mãe estava diferente no documento de identidade por ter alterado ao se casar. Contaram que tiveram um grande problema numa viagem anterior por causa disso: os fiscais do aeroporto questionavam se aquela mulher era mesmo a mãe da criança.

A minha atendente, vez que outra, observava a conversa ao lado.

― A senhora alterou o nome alguma vez? ― Ela pergunta para mim.

― Não. ― Dei uma olhada para o lado e continuei: ― Justamente para evitar este tipo de coisa.

Por que as mulheres ainda alteram o nome? Eu tenho uma grande dificuldade em entender isso porque quando eu analiso as consequências, nos dias de hoje, é só prejuízo. Quando eu me casei, eu tinha dois artigos publicados. Como isso ia ficar com uma alteração de nome? Eu tenho que deixar tudo para trás, esquecer tudo o que eu fiz e fui para abraçar essa nova identidade?

Pense em todos os órgãos públicos que precisam ser avisados dessa alteração. Novos documentos a serem feitos. E, se por acaso ocorrer um divórcio, lá vai ela trocar tudo de novo. Casou de novo? Bora passar trabalho. A não ser que ela tenha aprendido a lição.

Antigamente, até dá para entender esse processo, a mulher não tinha muita chance de escolha e era preparada para casar. Aguardava ansiosamente o momento de sair de casa, onde usava o nome do pai, para ir para a casa do marido, onde, de novo, sua própria identidade seria alterada para a do marido. E olha que em países como os Estados Unidos, por exemplo, o sobrenome da mulher desaparece por completo. Lá, eles só têm três nomes: o primeiro, o do meio e o sobrenome. Então, por exemplo, se a Laura Anne Smith casar com o John Peter Lincoln, o nome dela vai ficar Laura Anne Lincoln. Só isso. Não existe mais nome da sua família. E os filhos deste casal só ficam com o sobrenome do homem. Não existe herança de mulher. Algumas usam a estratégia do hífen para manter o sobrenome, ficando então, neste exemplo Laura Anne Smith-Lincoln.

Isso me fez lembrar um cliente. Ele me contou que todos os homens descendentes de italianos no Brasil têm direito a pedir cidadania, não importa a geração. E as mulheres? Não.

As mulheres já têm o não, desde sempre. Por que essas mulheres ainda escolhem mais um “não” nas suas vidas? O não para a sua própria história de vida. Este não representa um não para as suas próprias mães, para a herança das suas mães. Quantos sobrenomes e heranças históricas se perderam por conta dessa decisão? Quem se lembra do sobrenome de solteira da sua avó ou bisavó?

Nosso nome é a nossa identidade. Não precisamos ser adotadas por um homem. Me desculpem, mas me dá essa impressão. Somos órfãs para precisar de um sobrenome?

Eu admiro muitas mulheres que se casaram e adotaram o sobrenome do marido. Não tenho certeza se elas fizeram alguma reflexão no momento da decisão ou se simplesmente foram com o fluxo, ou se ao menos houve a possibilidade de elas dizerem não. Ninguém discute muito isso, na verdade. Está naturalizado. Eu não estou aqui julgando uma decisão tomada por uma mulher, estou aqui propondo uma discussão sobre algo que é normal quando não deveria ser.

Todo ano, no dia da mulher, sinto a necessidade de declarar algo sobre a nossa condição. Este é um dos aspectos que mais me tocam. A cada ano, torço para que seja o último que eu precise falar sobre o assunto. Já tenho até o título do texto que escreverei: “Lembra quando as mulheres alteravam o nome?”. Dia da mulher é dia de reflexão e esta é a minha proposta.

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