• Caroline Rodrigues

Poema traduzido

Em maio deste ano me deparei com este belo poema na revista New Yorker. A quarentena, que estava apenas começando, era cheia de incertezas. Fiquei encantada com a força das imagens transmitidas em cada verso e decidi trabalhar em uma tradução. Agora, final de ano, senti vontade de compartilhar esta beleza com mais pessoas, de espalhar a ideia da reflexão sobre a morte e sobre a vida num ano tão difícil. Encontrei a autora no Instagram e ela gentilmente autorizou que eu publicasse a tradução aqui, para minha felicidade.


Ophelia - Sir John Everett Millais - 1851/2 - Tate Modern Art Museum - Londres

Na quarentena, reflito sobre a morte de Ofélia

De Elisa Gonzalez


Acordo cedo e irritada, tomo aveia com mel de tomilho,

ligo para minha irmã, ligo para minha mãe, ligo para minhas outras irmãs, meus irmãos,

me preocupo com meu parceiro febril, me preocupo com meus irmãos, agora sem emprego.

envio um e-mail insensato, não escrevo um tweet insensato.


Estou sozinha então estou solitária. É o que minha irmã diz.


É hora de ficar em casa, o médico diz, todos os médicos dizem,

mas a janela aberta transparece que nem todas as vozes morrem de solidão.

Quieta, quieta! a janela bate.

É hora de abraçar as virtudes da monotonia, preço da felicidade de novo, depois.


A janela mostra homens cavando um local para sobreviventes do futuro, os ricos.

Será uma torre de paredes envidraçadas para invejar melhor.

Construíram as estruturas, vejo, em volta dos buracos onde portas um dia estarão.

Capitalismo! Tão cheio de buracos e esperança.


Se eu tento lembrar como era, a infância, período do kudzu*

crescer que eu sentia como estase dentro da sala de janelas brancas onde meu pai dia após dia me trancava—

se tento, vejo o teto, aquela mancha de água descendo

feito cachos Pré-Rafaelitas marrons, cabelos de uma menina se afogando em meio aos juncos,

que depois reconheci em uma pintura de uma pálida Ofélia se afogando.


Eu amo sozinha, digo à minha irmã. Ela diz, ‘Só porque você quer’.


Concordo que quero o passado.

Pela magnólia florescendo em uma rua cheia de gente, salva na beleza, pois eu

ainda amo o mundo, embora ele se afogue

e morra como aquela menina, desnecessariamente.


Um professor uma vez perguntou, feliz que não saberíamos,

Quem é realmente responsável pela morte de Ofélia?

A resposta, ele disse, deve ser como a sensação de termos chegado juntos

ao topo de um arranha-céu, onde a vista

desumana se revela em janelas e em ruas

os pequenos corpos doentes ou potencialmente doentes—cada um, uma nova gama de perguntas.


A única epifania possível é que o final de um pensamento nunca o seja.


Juntos. Eu gostava da palavra na boca do professor.

Mas se estou sozinha, e se estou solitária, e se não estou sozinha na solidão, e se todo mundo

junto sofre, e se esse todo mundo sofre e morre pelo movimento sem guia da

matéria, e se

também pelo movimento de homens assassinos e covardes, e se também pelo movimento do dinheiro, e se é claro

você sempre fosse morrer, Ofélia, e se mesmo assim sua morte permanece imperdoável,

então que perguntas eu devo fazer? Tudo que me resta é insônia e ira,

e isso não é resposta, não é nem mesmo um pensamento, embora talvez não acabe até que meu corpo acabe,

talvez nem mesmo então, pois posso imaginá-lo perdurando depois do meu fim, e de fato—

que fantasma mais adequado eu poderia deixar para trás? Já que eu amo, mesmo, o mundo.


*kudzu: planta trepadeira usada como erva medicinal.


Visite a página da autora Elisa Gonzalez (https://www.elisamariegonzalez.com/ ) e siga a poeta nas redes sociais (@elisamgonzalez).


Fonte: <https://www.newyorker.com/magazine/2020/05/25/in-quarantine-i-reflect-on-the-death-of-ophelia>

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