• Caroline Rodrigues

Paz Laranja

Texto de 2006. Meu primeiro texto publicado. Foi no livro do 2o Prêmio Literário Sérgio Farina, com o tema "O Cotidiano Urbano", da cidade de São Leopoldo. Ainda faz algumas pessoas rirem, então acho que tá valendo. Espero que proporcione alguma sensação a você também!
Arquivo pessoal da autora - Museu do Trem/SL

Acordo alarmada com um hino de torcida organizada. Olho no celular: cinco e meia da manhã. O hino se confunde com o som dos passarinhos anunciando que está começando mais um dia. Ouço também vozes de pessoas que estão saindo da balada. Aqui perto do meu apartamento tem um estacionamento e uns três bares, então consigo acompanhar a noite da cidade muito de perto, mesmo quando não saio. É claro que, além da noite da cidade, acompanho as brigas do casal do 403, a gata do 302 pedindo comida e a centenária máquina de lavar roupa do 205.

Fico pensando se levanto ou não. É domingo, o dia mais perfeito para não levantar, especialmente quanto as expectativas de socialização são o cara da locadora e a caixa do supermercado. Resolvo ficar mais um pouco e adormeço.

Umas duas horas depois acordo novamente. Silêncio total desta vez. Levanto e olho pela janela. O dia vai ser daqueles em que ninguém sai à rua. Todo o comércio está fechado e restam duas opções: cortar os pulsos ou pular do terceiro andar, porque nem uma arma se consegue num dia desses. Resolvo tomar café da manhã, em vez de ser manchete de jornal. Vou deixar o privilégio para outro. Tomo café sozinha, almoço sozinha e resolvo sair sozinha. Vou até uma lan house, talvez alguém tenha lembrado de mim e me mandado um sinal de fumaça. "Você não tem novas mensagens na sua caixa de entrada". Só uma mensagem na caixa de spam, vendendo um produto para aumentar pênis. Ninguém merece! No Orkut, mesma coisa. MSN, duas pessoas online, uma delas um aluno e a outra um cara que não quero ver nem pintado de ouro. Envio algumas mensagens, na expectativa de pelo menos ter as respostas, quando eu acessar amanhã.

Depois de algum tempo, saio da lan e vou até a locadora. Pego dois filmes e volta para casa. Vejo os dois filmes, um atrás do outro. Que ideia a minha pegar dois filmes de amor! Sou a nova Bridget Jones. Fumo um cigarro, tomo mais uma cerveja e nada do meu celular tocar. Na outra encarnação, quero nascer ameba.

Chega! Decido sair de casa novamente. Me arrumo, me maquio, me perfumo, um arraso! Duvido que não me notem, estou irresistível. Vou até o shopping a pé, só pra ver quantos olhares atraio. Se pelo menos tivesse alguém na rua. Chego ao shopping e vou até um café que tem lá. Sento e peço um capuccino. Pego uma revista e finjo estar superinteressada em uma matéria sobre a queda da bolsa na Ásia. Olho para outra mesa e noto um sujeito interessante lendo uma revista sobre carros. O problema é que a reportagem parece ser mais interessante que eu. Chega meu café, tomo meu café, arrasto a cadeira, troco a perna de lugar, mexo no cabelo, me engasgo com a bolachinha. E eu que nem gosto desta bolachinha maldita. E ele continua com os olhos fixos no lançamento da nova linha de carros. Nem quer saber do lançamento de micos que eu estou promovendo. Desisto e resolvo ler - de verdade - a matéria sobre a queda da bolsa na Ásia.

O dia está acabando. Saio do shopping e caminho devagar, meio sem rumo, mas em direção à minha casa. É como se eu entendesse que alguma coisa pode acontecer, tem esse cheiro úmido de inverno no ar, essa luz alaranjada de pôr de sol se esquivando entre os prédios. Fecho mais o casaco e sinto o vento no rosto. Vejo algumas pessoas que não conheço, mas que sempre vejo. Elas estão sempre ali e acho que elas devem pensar o mesmo de mim.

Quando chego ao meu prédio, tenho a surpresa que me esperava, que eu sabia que estaria ali, bem na frente da minha casa. A luz deixa laranja os versos que um amor antigo compôs para mim e colou em um poste de luz. Fico ali, acompanhando a luz que vai subindo. Pego e telefone e digo: "Eu sabia que hoje não era um domingo qualquer".

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