• Caroline Rodrigues

O voto

Já que é ano de eleição, posto aqui um texto que escrevi na época da eleição passada. Anos eleitorais são anos de absurdos.


Do lado de fora de uma sessão eleitoral, Cléverson entra no final da fila, que tem em torno de dez pessoas. Ele veste bermudas com bolsos, uma camiseta e um boné. Carrega fones de ouvido pendurados na gola da camiseta. Está bastante inquieto, olhando para os lados e conferindo o celular a todo momento. Jonas, o homem que está a sua frente, olha para trás. Cléverson o cumprimenta:

– Opa, beleza? – Jonas assente com a cabeça, enquanto volta a cabeça para a frente.

Cléverson chega muito perto do outro e fala sussurrando:

– Olha só, tô precisando descolar uns trocados. Tu não tá afim de comprar meu voto?

– Como é que é? – Jonas fala, voltando o tronco para o outro.

– Eu queria saber se tu não quer comprar o meu voto. Tipo, tu me dá uma grana e eu voto em quem tu quiser.

– Tu quer que eu compre o teu voto? – ele retruca, com o cenho franzido.

– Isso! – fala Jonas, empolgado e chamando a atenção dos outros votantes.

Jonas baixa a cabeça e o tom de voz:

– Cara, eu não posso fazer isso. O voto é secreto, tu tem que votar de acordo com a tua consciência e...

– Véio, não dá nada, é só um votinho – Cléverson o interrompe. – Eu tô precisando muito dessa grana.

Nesse momento, dá um passo para ficar bem próximo de Jonas, coloca a mão sobre a boca e fala, olhando para os lados:

– Surgiu umas parada aí, tá ligado?

A fila anda e Jonas aproveita para se afastar um pouco, mas logo Cléverson dá um passo à frente. Jonas responde:

– Não, não tô ligado. O voto é muito sério, moço. E além do mais, eu nem te conheço e...

– Não seja por isso! – fala enquanto estende a mão. – Meu nome é Cléverson, muito prazer.

Jonas mantém sua mão ao lado do corpo e Cléverson se inclina, puxando–a em um cumprimento. Enquanto sacodem as mãos, Cléverson mantém os olhos fixos em seu interlocutor em expectativa.

– E você é o…

– Jonas.

– Maravilha, tenho um tio que se chama Jonas. Faz tempo que não vejo ele, até. Uma vez ele me levou pra pescar, eu era bem piá, mas foi show de bola. Meu tio, ele é bem rico, aí a gente foi pescar com a lancha dele, muito da hora, ele até me deixou dirigir. Peguei um peixe, tinha que ver, quase não cabia na lancha, era gigante o troço.

Jonas olha para os lados, verifica o celular e assente com a cabeça enquanto o outro gesticula e conta sua história.

– Então – continua Cléverson –, agora que a gente já se conhece, que tal comprar meu voto? Te faço por 50 pilas, barbada. Me diz teu candidato, eu vou lá, aperto os botões e plilililii.

O homem move os dedos e ri com a sua imitação de urna eletrônica. Jonas tem o cenho franzido mais uma vez e pergunta:

– Tá, mas como que eu vou saber se tu vai mesmo votar em quem eu te pedir? O voto é secreto, não tem recibo, não tem nada.

– Ah, barbada! – ele diz enquanto retira seu celular do bolso e começar a tocar na tela. – Peraí, deixa eu ver onde que tá. Aqui, ó.

Cléverson se aproxima sorrindo e vira o celular para Jonas, que observa uma foto.

– Eu tiro uma selfie com a urna, fiz assim na última vez. Ficou show, né? Olha a cara da louca lá atrás, ficou pirada quando viu que eu tava fazendo uma foto. Ficou dizendo que não podia, e pá–pá–pá. Mas não deu nada, eu sou ligeiro, dei um desdobre nela. Pedi desculpas, disse que não ia mais fazer, essas coisas, sabe...

– Há quanto tempo tu faz isso?

– Eu comecei em 2010. Tirei o título com 16 já pensando nisso. O saco é que não tem votação todo ano. Mas aí eu catei uns outros lugar, tá ligado? Ano passado eu consegui arrumar um comprador na eleição de síndico lá do prédio. O pinta me deu 200 conto! Parece que ele tinha umas treta com o outro candidato.

Os dois dão mais um passo enquanto Cléverson relata sua experiência no ramo. Jonas continua com o cenho franzido. Fica um tempo pensativo e pergunta:

– Tá, mas como que eu nunca te vi por aqui antes fazendo isso?

– Ah, é que eu tinha um cliente fixo desde 2012. Mas esse ano o lôco veio com uns papo de consciência, da importância de eu mesmo escolher meu voto, que o que eu tava fazendo tava errado, essas parada tudo aí. Sabe o que é? De verdade? O magrão quase morreu, sofreu um acidente, passou um tempão no hospital entre a vida e a morte. Aí nunca mais foi o mesmo. Uma pena...

Jonas balança a cabeça e Cléverson continua:

– Porque o que eu ofereço pras pessoa é só vantagem, tá ligado?

– Então, as pessoas realmente fazem isso? Pagam para que tu vote em quem elas querem? Tu não te sente mal com isso?

– Me sentir mal por quê? Eu não preciso ficar escolhendo candidato e ainda descolo uma grana.

– Porque é como o teu… o teu cliente disse. É uma questão de consciência, de fazer a tua voz ser ouvida, de tu votar em quem tu acha que vai fazer um trabalho melhor.

– Cara, por que que eu vou pensar nisso se outra pessoa pode fazer isso por mim? Tipo, esse candidato aí que tu escolheu. Tu acredita nele?

– Bem... Acho que sim.

– Tu fez lá as tuas pesquisa, de ficha limpa, e esses negócio.

– É, fiz. Ele tem uns processos, mas não foi nada comprovado e…

– Hum… Ele tem processo. Olha, véio. Em geral, dependendo do processo, eu não voto.

– Como assim?

– Uma vez eu tive uma briga com meu cliente. Ele queria votar num cara que já tinha sido presidente e tinha raspado a poupança de todo mundo. Aí, não. Eu me recusei. Mandei ele escolher outro.

Jonas tem o olhar fixo no interlocutor e não percebe que a fila deu mais um passo. Cléverson o cutuca para que se mova. Jonas chega mais perto do outro e confessa em voz baixa:

– O candidato que eu escolhi parece que foi apontado na lava–jato.

– Na lava–jato, é? Cara, foi mal, mas é uma questão de princípios.

– Tu não vota se for da lava–jato, é isso?

– Não, nada disso. Pra candidato da lava–jato eu faço o dobro do preço.

– É, tá certo. É justo.

Cléverson observa a fila:

– Olha só, eu não quero ser chato, mas tu precisa decidir logo porque a fila tá andando. 100 conto.

Ele observa o seu interlocutor e complementa:

– Se tu não quiser, eu vou ter que ir lá pro final para conversar com outra pessoa. É uma oportunidade única, meu irmão, é pegar ou largar!

Jonas reflete um pouco e começa a mover sua mão em direção ao bolso traseiro da calça jeans em busca da carteira. Cléverson usa sua mão para fazê–lo parar, olhando para os lados e repreende Jonas:

– Meu, tu tá louco, guarda isso aí, véio. Depois a gente acerta lá fora. Me dá teu whats – fala enquanto busca o celular no bolso. – Qual é o número do candidato que tem que votar?

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