• Caroline Rodrigues

O rei tolo

Eu escrevi esta historieta em um momento da minha vida em que me decepcionei bastante com o jogo político-partidário. Agora, só quero saber do político, sem partidos.



Era uma vez, em um reino não tão distante assim, um rei. Ele vivia em um grande castelo e não havia formado sua família ainda. Em seu palácio, muitas pessoas trabalhavam para ele, afinal de contas, não era nada fácil manter um lugar daquela magnitude tão limpo e organizado. Havia empregados responsáveis pela limpeza, pela cozinha e pelo jardim, os quais eram subordinados a outras funcionárias, encarregadas da burocracia. Essas mulheres tinham uma relação muito próxima com o rei e, de tempos em tempos, eles se reuniam informalmente para falar sobre o andamento das funções no castelo.

As funcionárias gostavam do seu trabalho e realizavam suas tarefas com criatividade e eficiência, apesar de não receberem um salário muito condizente com suas funções. Elas sabiam das grandes festas que o rei dava para receber outros nobres, nas quais gostava de servir tudo da melhor qualidade e esbanjava muito dinheiro agradando essas pessoas. Um dia, as mulheres acharam que seria importante falar com o rei sobre essa disparidade. Decidiram, então, eleger uma delas para representá-las perante o rei em assuntos relacionados aos seus direitos trabalhistas. Ela se chamava Antrója e, por muito tempo, representou bem suas colegas.

Apesar de trabalhar muito, as funcionárias estavam sempre alegres. Durante o expediente, inventavam canções e organizavam momentos de confraternização com seus subalternos. Eles adoravam a forma como elas os tratavam e trabalhavam com mais afinco cozinhando, limpando e aparando a grama.

Um belo dia, o rei se apaixonou por uma das funcionárias. Ela se chamava Remilda e tinha longos cabelos negros. Assim, ele a tomou por esposa e ela foi realocada para a parte do palácio reservada aos nobres. Remilda ficou encantada com toda aquela pompa por algum tempo, mas logo começou a se sentir sozinha. De longe, ouvia as risadas e as canções das ex-colegas e sentia seu sangue ferver enquanto amaldiçoava a alegria alheia. Com o tempo, Remilda passou a não gostar que o rei realizasse as reuniões com as funcionárias. Então, uma noite, sugeriu ao pé do ouvido do rei, que ele contratasse um administrador para lidar com essas questões menores, que não condiziam com seu status.

Encantado, o rei acatou a sugestão e mandou chamar, de outro reinado, um senhor chamado Párlon, renomado administrador e, mais importante, amigo do rei. Párlon já conhecia a realidade do castelo, sabia dos montantes esbanjados em comidas e bebidas para os nobres e identificou um grande - e óbvio - problema orçamentário. Ele convocou o rei, Antrója e Remilda para uma reunião realizada a portas fechadas, regada a muito vinho e comida da melhor qualidade, a fim de explanar a situação.

No dia seguinte, Párlon convocou as funcionárias para anunciar que Antrója seria realocada para um espaço mais perto da parte nobre porque ela tinha uma posição de destaque dentro da organização do reino. Ela teria até seu próprio escritório e, quando as funcionárias precisassem de alguma coisa, era só bater em sua porta. Além disso, o administrador apontou algumas mudanças que precisavam ocorrer dentro do castelo, já que eles atravessavam uma crise tremenda. As funcionárias deveriam anunciar a seus subalternos que todos os equipamentos de trabalho deveriam ser providenciados pelos próprios empregados, desde produtos de limpeza até sal e açúcar. Párlon continuou elencando uma série de mudanças para conter os gastos exorbitantes do palácio e as funcionárias olhavam, incrédulas, para o novo chefe.

Quando ele terminou sua fala, uma das funcionárias, Rosa, pediu a palavra e questionou essas alterações, dizendo que aquilo não era justo com os empregados. Párlon, furioso por ter sido desafiado, aumentou seu tom de voz para dizer que ela não sabia fazer seu trabalho direito e que era por isso que as contas do palácio estavam do jeito que estavam. E mais, que a incompetência daquelas funcionárias tinha levado todo o reinado à falência.

As funcionárias ficaram atônitas. Nunca tinham lidado com uma pessoa assim. Primeiro, resolveram procurar sua colega Antrója, já que as sessões com o rei não existiam mais. Ao chegar no nobre escritório da ex-colega, Antrója estava tomando chá com Remilda, que era agora a sua melhor amiga. Antrója abriu uma fresta na porta e disse que elas precisavam agendar um horário se quisessem conversar. Elas perguntaram se podia ser naquela mesma tarde porque era um assunto muito urgente, mas a outra respondeu que só poderia atender na semana seguinte, já que naquela sexta teria reunião o dia inteiro com representantes de outros reinados. Ainda perdidas com a situação inusitada, as funcionárias acataram e voltaram para seus postos de trabalho.

Assim, passou-se uma semana. As funcionárias ouvindo, diariamente, Párlon vociferar sobre a incompetência delas, sobre a necessidade de cortar aquelas festinhas com os empregados e sobre a crise. Os tempos eram outros. As funcionárias foram, uma a uma, adoecendo, até que não aguentaram mais. Decidiram que estava na hora de falar com o rei porque não era possível que ele soubesse da situação pela qual estavam passando. Porém, uma delas lembrou-se de que, para falar com o rei, era preciso hora marcada. Ao ouvir isso, a funcionária mais experiente e a que estava mais angustiada também, Marla, sugeriu que elas fossem até sua porta e implorassem para serem atendidas. Tomadas de coragem, todas concordaram.

Na sexta-feira, estavam todas lá. Bateram à porta do rei e ouviram um novo subalterno dizer que não era possível atendê-las. Elas insistiram, batendo mais forte e dizendo que era urgente, que elas precisavam muito falar com seu bondoso soberano. Depois de algum tempo, ele pediu que elas aguardassem.

Permaneceram por quase uma hora em frente à porta até que ela se abriu. Na cabeceira da mesa estavam Antrója, Remilda e o rei, tomando vinho e comendo amêndoas. As funcionárias se sentaram ao redor da grande mesa e ele pediu que elas falassem. Uma a uma, elas relataram os maus-tratos que vinham sofrendo do administrador. Contaram tudo o que ele vinha fazendo e, como haviam concluído que o rei não estaria a par da situação, resolveram apresentar a queixa. Enquanto as funcionárias faziam seus relatos, Remilda ficava falando ao ouvido do rei, passando as mãos em seus cabelos e trocando olhares com Antrója. O rei bebeu muitas taças de vinho enquanto ouvia.

Ao final dos relatos, o rei estava muito irritado. Disse que o administrador havia sido contratado por ele para fazer um trabalho e que elas deveriam acatar suas ordens. Gritou que aquilo não era assunto para se tratar com um rei tão ocupado como ele. Enfatizou que elas não sabiam fazer seu trabalho e que, por isso, era necessário alguém que não fosse tão ligado aos empregados para fazer as mudanças necessárias. Bradou que nada estava funcionando direito e que elas estavam quebrando as contas do palácio com aquelas regalias. Ainda mais incrédulas, todas as funcionárias choraram muito ao ouvir aquilo da boca do homem que tanto admiraram um dia. Ao final do seu discurso, ele mandou que elas voltassem ao trabalho. Tristes, as mulheres tentaram, mais uma vez, uma agenda com Antrója, mas ela estava de viagem marcada, no dia seguinte, para o Grande Reinado, junto com Remilda e o rei, onde iriam tratar de assuntos políticos realmente importantes. Nesse momento, as funcionárias viram que estavam sozinhas. Desesperadas, sabendo que não suportariam continuar trabalhando naquelas condições, as funcionárias decidiram, naquela noite, pular o muro do castelo. Levaram uma trouxa de comida feita pelas empregadas da cozinha e deixaram cartas de despedida, contando toda a sua história para que todos soubessem da verdade.

Dizem que hoje Remilda, Antrója e Párlon estão administrando o castelo e que os empregados nunca mais festejaram. O rei continua fazendo festas e bebendo muito vinho. As funcionárias, por sua vez, foram em busca de trabalho em outros castelos e, por sua experiência, foram muito bem recebidas. Ainda assim, sentem-se tristes porque essa história ainda não tem um final completamente feliz.

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