• Caroline Rodrigues

O livro de ensaios de Elena Ferrante

Atualizado: 5 de ago.

Lançado na Itália, em 2021, o livro "I margini e il dettato" foi traduzido por Ann Goldstein e publicado no início deste ano nos EUA com o título "In the margins". Confira a resenha de Enrica Maria Ferrara, professora do Trinity College Dublin, publicada no portal World Literature Today e traduzida por mim. E claro, ficamos na torcida para que a tradução para o português deste livro seja publicada logo no Brasil.




NAS MARGENS: SOBRE OS PRAZERES DE LER E ESCREVER POR ELENA FERRANTE


O NOVO LIVRO DE ELENA FERRANTE, In the Margins [Nas Margens], é uma experiência de leitura emocionante que evoca trabalhos envolventes de não-ficção, tais como Seis Propostas para o Próximo Milênio, de Italo Calvino. Confirma que o sucesso global da escritora italiana se sustenta na sua habilidade de combinar destreza - talvez desenvolvida naquele (geralmente ignorado) ninho de talentos de escrita criativa que é a tradução literária - e o conhecimento formal dos clássicos; pesquisa independente de histórias não-canônicas com o fluxo incontido de uma escrita inspiradora que tende a transbordar nas margens.

In the Margins consiste de quatro ensaios: “Pain and Pen,” “Aquamarine,” “Histories, I,” e “Dante’s Rib” ["A Pena e a Caneta", "Água-marinha", "Histórias, eu" e "A Costela de Dante", em tradução literal]. O primeiro ensaio, que estabelece o tom da coleção e explica seu título evocativo, ilustra o conflito da autora com dois impulsos, que ela identifica como estilos de escrita separados: "o primeiro submisso e o segundo impetuoso". O primeiro estilo cumpre as regras ditadas pela autoridade - sejam professores, editores, editoras, público - que nos exige ficar dentro das margens estabelecidas do que constitui a expressão bela e correta; o outro é enérgico e indisciplinado. Ferrante parece ser pega de surpresa quando o segundo modo se manifesta. Isso tende a acontecer porque escritoras estão acostumadas a censurar sua sensibilidade e treinam para trabalhar de acordo com regras estabelecidas. Para que escrevam como homens, as mulheres têm dificuldades para ouvir suas próprias vozes. O relato que Ferrante nos dá sobre a época em que ela sentia "tornando-se masculina e ao mesmo tempo permanecendo feminina", portanto "invisível", é tocante. O que é, de fato, necessário é que as mulheres reconheçam seu próprio valor, escapem do seu destino "abjeto" e criem "uma vestimenta de palavras costurada com sua própria pena e sua própria caneta". Parafraseando um poema do escritor do século quinze, Gaspara Stampa, e corroborando o argumento com exemplos de Os diários de Virgínia Woolf e de O inominável, de Samuel Beckett, Ferrante ilustra o quanto é difícil manter os dois tipos de escrita equilibrados.

No segundo e instigante ensaio, "Aquamarine", a autora ataca o assunto espinhoso do realismo. É possível escrever a realidade como ela é? Certamente que sim, Ferrante pensou inicialmente. Mas, então, ela deu-se conta de que o significado de cada objeto depende de suas interações com outros objetos e com pessoas. Um lindo anel água-marinha, que pertencia à mãe da autora, é usado para exemplificar o seu raciocínio: "a água-marinha era mutável, parte de uma realidade mutável, de uma eu mutável". Os fãs de Ferrante se lembrarão do bracelete de A vida mentirosa dos adultos, que parece possuir poderes mágicos, se tornando um personagem por mérito próprio. O bracelete mostra como indivíduos incompatíveis se tornam associados e confusos na mente de um observador quando um objeto fica enredado neles. No romance, o refinado Costanza e a vulgar Vittoria ficam imbricados no momento em que "o bracelete pressionou-os um contra o outro e deixou-os confusos, me confundindo".

Não existe essa coisa de realidade objetiva na obra de Ferrante: a escrita emerge não de um plano cuidadosamente traçado ou de uma epifania do real, mas de "colisões" entre a narradora e o mundo "no qual não só a narradora, mas a própria autora, uma criadora pura da escrita, estavam embricadas". Em outras palavras, a narradora não é uma observadora externa; ela está interconectada a fundo naquele emaranhado também.

Essas reflexões confirmam que Ferrante não só incorpora uma visão de mundo neomaterialista, mas também nos ajudam a compreender aquela tensão de escrita indisciplinada que ela mencionada no seu primeiro ensaio. Evocando a literatura digressiva de humor de Diderot e Sterne, a escritora identifica os modelos daquele estilo impetuoso lutando contra as margens da página escrita. Ela então prossegue e nos conta como, em seus três primeiros romances (Um Amor Incômodo, Dias de Abandono e A Filha Perdida), ela conseguiu "calibrar os dois tipos de escrita, usando o mais submisso para fingir um ritmo realista lento e o mais indisciplinado para quebrar com a sua ficção a ficção do primeiro".

Como ela fez isso? Isso é ilustrado na conclusão de "Aquamarine" e no terceiro ensaio, "Histories, I". Elementos-chave parecem ser a inclusão de um "outro necessário" nos seus textos e o reconhecimento de importantes modelos literários escritos por mulheres, tais como A Autobiografia de Alice B. Toklas, de Gertrude Stein. Ela paga tributo à filósofa feminista Adriana Cavarero quando se trata da invenção de uma voz narrativa feminina que incorpora a voz de uma outra, e dá à luz aquela excepcional personagem relacional, o duo Lenù-Lina de A Amiga Genial, que Tiziana de Rogatis definiu como "polifônica".

Se a ênfase de Cavarero na narrativa mútua entre amigas é nuclear para a poética de Ferrante, lembra-nos também de A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristam Shandy, de Laurence Sterne, mencionado por Ferrante em seu primeiro ensaio. Neste livro, o conceito de escrita como uma "conversa" é central para o relato digressivo e egocêntrico em primeira pessoa do narrador sobre uma vida na qual as opiniões contam muito mais do que reconstruções factuais de verdades objetivas. Mas a identidade que emerge daquele diálogo com um "outro necessário" - o leitor de Sterne, que é abordado diretamente em cada canto do romance - é fugidio e dominador. Ao passo que o narrador invoca a necessidade de reciprocidade, o leitor acaba preso em um tempo de narrativa regido por digressões e procrastinação. A este modelo despótico de conversa, Ferrante faz o contraponto com o livro de Stein, que é concebido como uma autobiografia de sua amiga Alice B. Toklas mas é, na verdade, em grande medida, a história de Gertrude Stein, a autora empírica cujo nome figura na capa. Um personagem real, que foi também a datilógrafa de Stein na vida real, é incorporada na narrativa como a "outra necessária" que vai garantir que a conversa evocada por Sterne seja atualizada e a narrativa não se transforme em um performativo monólogo auto-centrado e obsessivo: "a autobiografia falsa parece um texto que as duas mulheres de fato escreveram, uma ao lado da outra".

É difícil ignorar a semelhança entre as vozes interligadas de Gertrude-Alice com as de Lenù-Lina - enfatizada pela própria Ferrante ao reconhecer o livro de Stein como um modelo para A Amiga Genial. De fato, conversa significa reconhecer que, como escritores, somos feitos de outras vozes "que herdamos, das quais o 'eu' que escreve, goste ou não, é feito". Entretanto, interagir com essa tradição acarreta perceber que as escritoras continuam não tendo voz no "patrimônio" literário dominado pelo masculino e é por isso que são assombradas por um senso de invisibilidade: "Conheci durante a minha vida homens cultos que não somente nunca tinha lido Elsa Morante ou Natalia Ginzburg ou Anna Maria Ortese, mas que também nunca tinham lido Jane Austen, as irmãs Brontë, Virginia Woolf".

O "inleiarsi recíproco" ou "entrar um no outro" - onde o outro é um lei, uma interlocutora - é portanto muito mais do que um aparato narrativo adotado por Ferrante para manter seus dois tipos de escrita equilibrados. É um incentivo para todos os escritores, de qualquer gênero, identificarem uma genealogia das escritoras como sua "História", que - como um lindo poema de Emily Dickinson que concebe este ensaio - não vai pendurar "o trabalho da bruxa na forca", mas vai "encontrar ao nosso redor toda a bruxaria de que precisamos".

O ensaio final de Ferrante retorna às origens da literatura italiana e, ao nos oferecer um relato vívido de sua relação com A Divina Comédia de Dante, continua com o tema da literatura como "conversa". De fato, o "presente mais surpreendente" de Dante é a "identificação" ao olhos de Ferrante: "Uma descrição Dantesca nunca é meramente uma descrição, mas é sempre o auto-transplantado, o coração se deslocando a toda velocidade - poucos segundos - de dentro para fora". Para exemplificar esta característica poderosa, a autora cita os neologismos de Dante, tais como "inluiarsi, intuarsi, inmiarsi" (entrar dentro dele, entrar dentro de você, entrar dentro de mim)".

De acordo com Ferrante, Beatrice é a sublime invenção de Dante como o progenitor de uma nova hierarquia de mulheres dotadas de "intelletto", capazes de compreender o elogio do poeta, e não somente objetos silenciosos a serem admirados. De fato, em A Divina Comédia, Dante permite que Beatrice "irrompa de sua mudez" e fale "como um homem ou talvez melhor que um".

Ao comentar a extraordinária modernidade desta personagem "que mistura de forma deliberada o feminino e o masculino", Ferrante observa, não sem uma ponta de ironia, que Dante nunca inventou a palavra "inleiarsi, ou entrar dentro dela". Por sorte, isto é remediado pela habilidade da nossa genial autora em capturar a beleza da reciprocidade feminina em seus romances, assessorada pelo perspicaz inleiarsi de Ann Goldstein que consegue, aqui e acolá, entrar de forma magnifica na voz da autora italiana.



Você pode ler o original do texto em inglês neste link.


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