• Caroline Rodrigues

Nova tradução de livro de Machado de Assis

Confira a tradução do prefácio da edição em inglês de "Memórias póstumas de Brás Cubas"



Uma matéria da revista New Yorker publicou na íntegra o prefácio do livro, um ensaio escrito pelo editor Dave Eggers, o qual traduzi para vocês:


"Redescobrindo um dos livros mais espirituosos já escritos

Por Dave Eggers

2 de junho de 2020

A inteligência pula séculos e hemisférios. Não acumula poeira e, quando é bem-feita, não envelhece. “As Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Joaquim Maria Machado de Assis, é um exemplo. Há tempos esquecido por muitos, é um dos livros mais espirituosos, mais divertidos e, portanto, mais vivos e atemporais já escritos. É uma história de amor - na verdade, muitas histórias de amor - e é uma comédia de classes e boas maneiras e ego, e é uma reflexão sobre uma nação e um tempo, e um olhar corajoso sobre a mortalidade e, ao mesmo tempo, é uma exploração íntima e eufórica do ato de narrar em si. É uma obra-prima brilhante e uma alegria inabalável de ler, mas, por nenhuma razão em particular, quase nenhum falante de inglês no século XXI a leu (e eu li apenas recentemente, em 2019).

Mas ela sobrevive e deve ser lida pela música de sua prosa e, mais do que qualquer outra coisa, por sua brincadeira formal. Uma nova tradução, de Flora Thomson-DeVeaux, é um presente glorioso para o mundo, porque brilha, porque canta, porque é muito engraçada e consegue capturar o tom inimitável de Machado, ao mesmo tempo mordaz e saudoso, autolacerante e romântico. Seu narrador, Brás Cubas, está morto. Ele conta a história de sua vida desde o túmulo, e talvez porque não tenha mais nada a perder - estando morto -, ele conta a história exatamente como ele quer, danem-se as convenções. O romance se desenrola em capítulos breves e brilhantes, iluminados ainda mais por uma interminável autorreferencialidade e insegurança. "Começo a arrepender-me deste livro", escreve Brás Cubas em um capítulo chamado "O senão do livro". "Não que ele me canse", continua ele. "Eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade".

A história, em sua essência, é quase convencional, um triângulo amoroso aristocrático do século XIX. Brás Cubas paira em volta das classes ricas do Rio de Janeiro, mas não tem vontade de se casar (a obsessão de sua irmã) ou a ambição de crescer dentro do governo (o desejo de seu pai). Ele passa a chance de se casar com a bela Virgília e ser catapultado para a vida pública por seu poderoso pai. Em vez disso, um homem honrado, chamado Lobo Neves, agarra tanto a mão de Virgília quanto a tutoria de seu pai, e é só então que Brás Cubas começa a se sentir atraído por Virgília. Eles começam a ter um caso e tentam - não tanto, na verdade - escondê-lo do deveras confiante marido de Virgília. Logo, todos na sociedade carioca parecem saber, e o perigo da descoberta apenas acaba aproximando mais os amantes.

Enquanto isso, Brás Cubas contempla o sentido da vida (a partir do túmulo), auxiliado por seu amigo Quincas Borba, que está tentando popularizar uma filosofia chamada Humanitismo, projetada, escreve Machado, "para arruinar todo o resto". Na sua essência, está a crença na retidão de qualquer coisa humana. Brás Cubas admite que se trata de algo Panglossiano, mas encontra um certo consolo na noção radical de que os seres humanos devem ser autorizados a fazer qualquer coisa que os seres humanos naturalmente fazem, que qualquer coisa que façamos é porque devemos fazer - com especial reverência pela criação de mais humanos. “O amor, por exemplo”, escreve ele, “é um sacerdócio, a reprodução um ritual. Como a vida é o maior benefício do universo [...] segue-se que a transmissão da vida, longe de ser uma ocasião de galanteio, é a hora suprema da missa espiritual. Porquanto, verdadeiramente há só uma desgraça: é não nascer".

Machado alterna entre a história de amor do livro e seus interlúdios metafísicos com facilidade, em parte porque, embora o livro seja sobre coisas sinceras - amor, a vida em si, a finalidade da morte -, a obra nunca se leva a sério. No capítulo IV, "A ideia fixa", Machado inicia uma grande analogia comparando os esforços humanos menores aos que ecoam através dos tempos. “Mal comparando, é como a arraia-miúda, que se acolhia à sombra do castelo feudal; caiu este e a arraia ficou. Verdade é que se fez graúda e castelã. . . Não, a analogia não presta". Os títulos dos capítulos nos desarmam. Um capítulo, apropriadamente chamado de "Triste, mas Curto", é seguido por outro chamado "Curto, mas Alegre", que é ambos. Há um capítulo dedicado a botas, outro às pernas do autor, enquanto outro é chamado "Que não é sério". O capítulo CXXX é intitulado “Para intercalar no cap. CXXIX” e, no final, o autor solicita que o leitor o insira entre a primeira e a segunda frases do capítulo anterior. Há também uma longa alucinação envolvendo um hipopótamo.

De alguma forma, nenhuma das brincadeiras e diversões intertextuais diminui o poder da história. O romance entre Brás Cubas e Virgília é convincente e loucamente lírico. O sentimento que temos pelo desavisado Lobo Neves é real, e o crime que o narrador e Virgília cometem com ele nunca é punido - na vida ou na morte. E isso é fundamental. Este é um livro ateu, em que não há juiz senão a nossa própria consciência, e onde o ofensor fica sozinho, em uma caixa permeada por vermes, recontando sua vida e falhas sem nenhuma consequência celestial. É engraçado também. É completamente original e diferente de tudo, exceto pelos tantos livros que vieram depois dele e que parecem ter, conscientemente ou não, bebido dele.

Os leitores são uma espécie amnésica e, assim, a cada par de décadas, acordamos para acreditar que um autor se dirigindo diretamente ao leitor, ou brincando com a forma, ou incluindo referências ao autor ou ao livro dentro daquele livro, é algo novo e deve ser rotulado post ou meta ou qualquer termo infeliz e restritivo que virá a seguir. Mas o fato é que um grande número de clássicos ao redor do mundo emprega um ou muitos desses chamados dispositivos post/meta. Tudo começou com Cervantes, que permitiu que Dom Quixote e Sancho Panza soubessem, no Livro II, que eles eram personagens do Livro I. “Cândido” - ao qual Machado faz referência muitas vezes - é infinitamente autoconsciente, e Thackeray, em “Vanity Fair”, faz tantas referências à presença, aos poderes e à onisciência do autor que o leitor perde a conta. Joyce e Austen e Nabokov e Sterne - também referenciados por Machado - e Stein e Pessoa e uma legião já experimentaram com a forma do romance, já inseriram e questionaram sua autoridade autoral, sua disposição em experimentar e, para se divertirem um pouco com o relacionamento entre escritor, leitor e o próprio livro, mantiveram a forma fresca e surpreendente, e desta forma o mantiveram vivo.

Mas agora é diferente. Agora estranhamente - tão estranhamente - vivemos tempos de profundo tradicionalismo na literatura, e é difícil explicar o porquê. Há alguns anos, tive o enorme prazer de julgar um concurso para nomear o melhor romance do ano, e o comitê do qual eu fazia parte, inusitadamente, se divertiu com a tarefa. Havia tantos livros brilhantes. Mas, dos quatrocentos romances norte-americanos lidos naquele ano, apenas algumas dúzias poderiam ser chamados de engraçados, apenas alguns poderiam ser chamados de brincalhões, e contei exatamente dois que eram, de alguma maneira significativa, experimentais. Se isso não é uma indicação de um medo geral do novo, uma hesitação em arriscar-se, e uma auto-seriedade surpreendente e mal aconselhada sobre o romance, não sei bem o que é. Isso não quer dizer que todos os romances, ou mesmo a maioria, devam ser, ou possam ser, tão divertidos quanto este, mas não faria mal ter mais alguns que permitam humanos - personagens, leitores, autores até - darem risadas. Negar as piadas da vida, e a própria piada da vida, é muito triste".


Para conferir a reportagem original, acesse este link.

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