• Caroline Rodrigues

Não vá a Cabo Polonio



Eu fui a Cabo Polonio e não deveria ter ido.

Pisei nas dunas de areias brancas e finas, atrapalhando seu deslocamento. Grãos minúsculos impedidos em seu trajeto pelos meus pés que os amassavam em pegadas profundas. Se ao menos as formas esculpidas pelo vento fossem somente moldadas pela terra, mas o plástico e o vidro intrusos, trazidos pela maré alta, ofuscam o cenário belo. É o deslumbramento transformado em choque.

Eu não deveria ter ido ver os lobos marinhos. Animais que já habitavam o mundo muito antes dos seres humanos. Já no primeiro contato, com povos indígenas e com navegadores do velho mundo, foram abatidos, algumas vezes por fome e muitas vezes pelo senso de superioridade e desconexão que nós temos com a natureza. Eu deveria ter pedido desculpas, mas eu só tirei fotos e invadi as pedras que eram só deles, mas que agora eles dividem com placas que humanos colocaram para lembrar humanos de deixar um pouco de espaço para os animais. Eles, os primeiros a chegar. Naquele momento de contemplação, enquanto observava os lobos gritando e esfregando suas barrigas nas pedras, vi a covardia, que só diminui através de leis que controlam a matança destes e tantos outros animais.

Eu caminhei pelo gramado e encontrei uma fenda de um centímetro tão comprida que não se achava o início ou o fim. Ela me lembrou que as formigas também têm suas estradas e que cada barraca montada ameaça um aspecto que a natureza levou muitos anos para moldar. Cada casa construída é uma barreira. Aquelas mesmas casas que invejei, à beira-mar, erguidas sobre terrenos de rochas gigantes que não deveriam pertencer a ninguém. Talvez o notório número de naufrágios no Cabo, durante a época das navegações europeias, fosse um aviso. Mas nós temos a audácia e a mania de não dar bola para avisos.

Eu não deveria ter visto que, durante a noite, lampiões improvisados com garrafas plásticas iluminam o caminho de pessoas em direção aos bares para se divertir com música alta e bebida à vontade. Elas ignoram a vontade de silêncio e escuro do lugar. O céu mais estrelado de todos testemunha o pior do humano, que deixa garrafas e copos plásticos pelo caminho, marcando com suas pegadas malditas um lugar sagrado. Em lugares assim, talvez devêssemos colocar aquelas placas que proíbem animais na beira da praia e ficaria subentendido que esses animais somos nós. Um lugar livre para cachorros e gatos e outros animais sujar a praia à vontade. Pensei em formar um bando de cães fora-da-lei para percorrer os litorais e, quem sabe assim, afastar os humanos e ver as praias limpas de fato.

Eu não entrei no mar, mas invejei aqueles que tiveram a coragem de enfrentar a água gelada. Pensei, na hora, como o humano é adaptável e talvez, por isso, se ache no direito de pertencer a qualquer ambiente. Nós gostamos de superar limites e construímos motos aquáticas e barcos a motor cheios de ruídos e roupas de borracha e tanques de oxigênio só para estar em lugares que não são nossos. Se ao menos o olhar nos bastasse. Se ao menos o ser humano também se achasse parte da natureza. Só que nós enchemos os estômagos das tartarugas de plástico. Pode haver notícia mais triste que essa?

Eu sei que muitas pessoas se preocupam e tentam cuidar do lugar, mas mesmo elas são intrusas. Eu, que não joguei nada fora do lixo, também sou intrusa porque essa coisa de lixo é uma invenção do humano. Eu não deveria ter ido e ninguém nunca deveria ter ido. Estou certa de que isso vale para muitos outros lugares no mundo. Mas nós lemos as placas, escutamos os avisos e seguimos invadindo e consumindo. O ser humano é o vírus do mundo. Nós cortamos as asas dos flamingos. Nós colocamos as aves em gaiolas. Nós construímos estradas no meio da floresta amazônica. Nós matamos animais por esporte. Nós invadimos até a órbita terrestre com lixo.

Eu não deveria ter pensado em voltar pra lá todo ano ou ter sentido vontade de morar naquele lugar. Botar um negócio e viver em conexão com a natureza. Ver aquele céu estrelado do topo da colina ou da beira do mar e esperar que a luz elétrica e a água encanada nunca cheguem por lá. Mas nós temos Chernobyl, Hiroshima, Bhopal e Mariana. Temos os desastres de Exxon Valdez, Deepwater Horizon, Jilin Chemical Plant e Union Carbide. Nós temos lixões, minas, cidades e progresso. E quando temos tecnologia, parece que a natureza é sempre a última a se beneficiar dela.

Pensando bem, talvez você deva ir, sim. Talvez você volte como eu voltei, mais pensativo e contemplativo. Talvez você comece a compreender que nós não precisamos ocupar todos os lugares do mundo. Quem sabe seja essa a magia do Cabo, da qual os moradores tanto falam. A magia de mexer com nosso ritmo, desacelerando o passo e fixando o olhar, as primeiras ações em busca do que deixamos de ser: humanos.


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