• Caroline Rodrigues

Erro crasso

Crônica publicada no meu antigo blog em agosto de 2018.


Photo by Thought Catalog on Unsplash

Do meu tempo de estudante, a maior parte das lembranças tem a ver com o pátio, a quadra ou o caminho para a escola. De dentro da sala de aula, restaram pouquíssimas memórias. Repreensões pelo excesso de conversa, bilhetinhos indo e vindo o tempo todo, copiar do quadro (muito!) e a incapacidade de colar por medo de ser pega. Porém, algumas situações constrangedoras por vezes me voltam à memória.

O primeiro constrangimento de que me lembro foi na quinta série. Era o momento de correção dos exercícios. Consigo visualizar a professora pedindo para eu ler a resposta de alguma questão em voz alta para a turma. Os rostos dos meus colegas estão virados para mim e a única coisa que eu conseguia fazer naquele momento era pensar no que eles estavam pensando. Eu não conseguia achar a tal da resposta de jeito nenhum. Por coincidência, foi a única questão que eu não consegui. Nessa imagem mental, ela está sentada, atrás de sua grande mesa, e só o que ela faz é insistir para que eu olhe “direito” para o livro e ache a resposta. Se não me engano, era uma interpretação de texto. Ela falava e a impressão que tenho é que eu mal ouvia, ela parece tão distante. O tom de voz está embebido de impaciência, como se fosse a resposta mais óbvia do mundo, o que só alimentava meu desespero por não conseguir enxergar algo tão claro. Se alguém pedisse, eu não seria capaz de descrever aquela professora hoje em dia. Ela é uma imagem borrada na minha cabeça, assim como a resposta óbvia que até hoje não descobri.

Outro fato bem marcante também está relacionado à vergonha. Aconteceu na sétima ou oitava série e foi resultado de uma aula de português. A professora havia pedido para a turma escrever uma redação abordando o problema das enchentes. Como sou de São Sebastião do Caí, uma cidade em que de tempos em tempos o rio transborda, desabrigando diversas famílias, nada fora do normal. O texto deveria discorrer sobre o que poderíamos fazer toda vez que a cidade enfrentasse o problema. Era meu primeiro ou segundo ano na cidade e tinha vivido a minha primeira cheia naquele ano. Estava muito impressionada e impactada com a força da água e com o fato de tantas pessoas morarem tão próximas ao leito. Eu estava com minha cabeça fervilhando e tinha pensado em diversos pontos sobre o assunto. Peguei uma folha e articulei minhas ideias, na minha melhor forma panfletária e idealista, e talvez fosse a primeira vez que me sentia orgulhosa de algo que havia escrito. Eu lembro de me sentir feliz pelo que havia escrito. No calor dos argumentos, acabei meu texto dizendo que “deveríamos arremangar as calças e ajudar os outros nesses tempos de grande dificuldade”, algo assim.

Quando eu recebi a folha de volta da professora, a imagem da caneta vermelha circulando a palavra “arremangar” e a expressão “erro crasso” escrita em letras garrafais odiosas no canto da página me derrubaram. Eu vi ali o “caps lock furioso” sendo inventado. Foi um tiro, uma flechada, uma pedrada ou qualquer outra coisa horrível que se possa imaginar na minha autoestima, que já não era lá grandes coisas. Primeiro, porque eu precisava entender o que diabos “crasso” significava e, pela cor da caneta e desenho da letra, eu não era nem louca de ir lá perguntar para a professora (além de estar escrito bem do ladinho da palavra “erro”). Segundo, porque não havia nenhuma consideração sobre o conteúdo do texto. Era como se todas as minhas elaborações e todo o meu esforço fossem um castelo de areia com uma placa luminosa escrita “arremangar” no topo e aquele crasso fosse uma onda. E na minha mente, essa onda se transformou em um tsunami, arrasando minha confiança.

Eu senti muita vergonha depois que eu descobri o que “erro crasso” significava. Como é que eu, Caroline, que aprendeu de berço a importância do conhecimento, do estudo, da leitura, cometia um erro daqueles? Essa vergonha me acompanhou por anos. Pode parecer pequeno para pessoas imunes a opiniões alheias, mas eu demorei muito tempo para construir a (pequena) autoconfiança que tenho hoje. Tanto que, durante minha caminhada acadêmica, no curso de Letras, uma professora maravilhosa devolveu uma produção textual minha e disse que eu tinha escrito os melhores diálogos da turma. Sabe o que eu fiz com isso? Disse para mim mesma que ela estava sendo gentil. Anos depois, outro professor pediu que escrevêssemos um texto argumentativo e, na devolução, ele anotou que eu deveria publicar aquela carta que eu havia escrito, que era pura argumentação. E o que eu fiz? Nada. Eu fingi que não havia entendido e hoje me arrependo de ter, inclusive, jogado a carta fora.

Não estou dizendo que tudo isso aconteceu só por causa daquele evento, mas também não ajudou muito. Fico imaginando se, ao invés daquele recado, ela tivesse agido de outra forma. Se ela tivesse, pelo menos, dado sua opinião sobre o conteúdo do texto. Talvez não fosse grande coisa, eu sei, mas uma palavrinha de incentivo, sabe? Ela poderia ter sublinhado a palavra errada (até podia ser de vermelho) e escrito: busque a definição do dicionário e veja se é a melhor escolha. Quem sabe ela me chamasse para conversar, dizendo que eu havia cometido um pequeno deslize. Pronto. Uma aluna aprendendo com seu erro. Uma aluna mantendo sua dignidade ao expressar sua opinião e, quem sabe, até investindo sua energia na escrita. Ela até poderia se tornar uma cronista, já pensou?

Por sorte, a minha vontade de escrever continuou (e continua) e eu pude encontrar meios para dar vazão a ela, mesmo depois de tanto tempo. O certo é que eu aprendi que sou feliz escrevendo e, mesmo que eu cometa erros crassos, ou melhor, mesmo quando eu cometer erros crassos, as canetas vermelhas não poderão mais me machucar.

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