• Caroline Rodrigues

Do orelhão ao celular

Minha aventura pelo mundo da comunicação


Fila para usar o orelhão.

Jovens, pasmem, houve um tempo em que não existia celular. Quando eu era criança, todo mundo usava orelhão com fichas. Orelhão é o carinhoso apelido que as pessoas deram ao telefone público porque parecia, de fato, uma grande orelha. Ele ficava na rua e as pessoas usavam para falar com alguém distante inserindo fichas compradas em tabacarias. Eu achava bem mais chique usar moedas, como nos filmes que passavam na Sessão da Tarde. Mais tarde, um pouco de glamour foi obtido quando, depois das fichas, passamos a usar cartões. Eles se pareciam com cartões de crédito e algumas pessoas até faziam coleções porque o verso era ilustrado com diferentes imagens.

Telefone fixo de discar.

Poucas pessoas tinham telefone fixo em casa. Telefone fixo é aquele aparelho que fica preso a uma linha dentro da casa de alguém ou de uma empresa. Essa tal de linha custava os olhos da cara e tinha uma fila de espera quilométrica para consegui-la. Lembro quando chegou lá em casa, eu devia ter uns nove anos. Como éramos três irmãos, cada vez que o telefone tocava, era uma correria pra ver quem atendia primeiro. Às vezes, a gente gostava de fazer como nas novelas e dizia “residência dos Rodrigues” ao atender. Era bem divertido. Passar trote também era, mas isso eu não fazia. Passar trote é ligar para um número qualquer e fingir que você é outra pessoa, só para enganá-la e você se divertir; um questionável passatempo antigo de muitos jovens, na época.


O famoso tijolão.

Celular, mesmo, eu só vi na adolescência. Meu primeiro emprego de verdade foi como faturista. Era bom, fora a época do mês em que a colega fazia o balancete e a impressora matricial ficava bem ao lado da minha mesa. Acho que eu já tinha decorado o barulho que ela fazia todo mês, como uma espécie de código morse me dizendo que era melhor eu me acostumar com aquilo. Nessas épocas, torcia para ter bastante serviço de banco, que era eu quem fazia também, para demorar muito na rua. Foi aí o meu primeiro contato com o celular. Meu chefe me passava as instruções do que fazer em cada banco e, um dia, depois de explicar tudo, ele tirou da gaveta um telefone motorola - hoje conhecido como tijolão, por motivos óbvios - dizendo que eu o levaria porque ele talvez me solicitasse mais alguma coisa.

Peguei minha pastinha com os documentos e coloquei o celular dentro, que quase nem cabia de tão grande. Dentro do banco, ficava me certificando de que ele continuava lá, enquanto outros empresários carregavam orgulhosamente seus aparelhos presos à cintura. As pobres calças pendiam exaustas de cintos desfigurados. Lembro minha torcida para que o telefone tocasse; afinal, seria um momento de glória, um reconhecimento da sociedade de que ali estava uma pessoa realmente importante com assuntos de fato urgentes para serem tratados. Não tocou, o que também foi um alívio porque eu nem tinha certeza se saberia atender.


Em 1998, o serviço de telefonia estadual foi privatizado. Não sei se foi coincidência, mas, com o tempo, foi ficando cada vez mais difícil achar um orelhão que funcionasse e foi ficando cada vez mais fácil parcelar um celular nas lojas. Sem contar que telefonar de fixo para celular era muito caro, tinha que falar igual locutor de futebol de rádio AM. Nessa época, começaram a vender celular de cartão. Eu fiquei muito intrigada, tentando entender onde é que se encaixava o tal do cartão num aparelho tão pequeno. Olhava nas vitrines, mas não via entrada nenhuma. Ao mesmo tempo, morria de vergonha de perguntar e rirem da minha cara por não saber. Resultado é que passei muito tempo sem entender o raio do celular de cartão porque ninguém que eu conhecia tinha um.

Eu tive um desses.

Quando eu comecei a procurar outro emprego, já era mais comum ver celulares nas ruas. Eram menores, coloridos, atraentes e acessíveis. Começamos a ouvir falar em marcas que eram totalmente desconhecidas para nós até então: Nokia, Motorola, Ericsson. As escolhas de aparelho eram bem limitadas e os atrativos não mudavam muito. Era uma época em que o celular era usado para falar e oferecia, no máximo, o jogo da cobrinha para passar o tempo. A gente olhava para ele umas três vezes por dia, quando muito, até porque tinha que pagar até para mandar mensagem de texto.

Foi nessa época, então, que eu inventei as mais loucas desculpas para comprar um celular. Não era óbvio ter um celular; precisava ser necessário, já que era um investimento de muitas parcelas no boleto ou no cartão, sem contar o gasto que se teria para manter o aparelho em funcionamento, controlando as ligações para não ficar sem falar na metade do mês. Como eu disse, estava procurando emprego e pensava: “imagina se eles ligam para a minha casa e eu não estou e decidem ligar para outra pessoa que tem celular e atende na hora?”. Ficava cada vez mais evidente que as coisas começariam a acelerar no mundo e as respostas tinham que ser imediatas. Eu tinha que me encaixar. Por isso, depois de pesquisar em cinco lojas diferentes, fiz a compra e fui para casa deixar o celular carregando por 24 horas antes de usar porque era isso que se fazia naquela época, uma recomendação para a bateria durar mais tempo. Que angústia até o dia seguinte. Já ficava planejando os dez números de celular que seriam colocados na agenda porque a memória só comportava isso. Ou porque eu nem conhecia tanta gente assim com celular.


Esse eu tive na cor rosa.

Depois de carregado, era hora de escolher o toque, que eram monofônicos e, em geral, estridentes. Era perfeito porque ninguém queria passar despercebido ao utilizar um celular. Precisava ser aquele som que todo mundo olhasse e que, de preferência, fosse aumentando gradativamente enquanto a gente bagunçava a bolsa toda tentando achar o aparelho. E havia tão poucas opções de toques que todo os donos de celular começavam a se debater achando ser o seu próprio aparelho. Em época de Natal, então, piorava porque o mundo todo selecionava o toque chamado “Merry Christmas”.

Esses dias estava pensando na facilidade com que as pessoas oferecem o número do seu celular por aí, algo inadmissível nos primórdios da comunicação telemóvel. O número do celular era segredo (ou sagrado), disponibilizado somente depois de muita ponderação acerca da importância de aquela pessoa ter o nosso número. Era feito um escrutínio detalhado das intenções; sim, era necessário um propósito para tal ação, que podia ter fundo romântico, profissional ou de amizade; às vezes, uma intenção disfarçada de outra.


Muitas coisas mudaram depois que o celular entrou em nossas vidas. O velho “alô” foi praticamente abolido depois que passamos a ver o nome de quem está nos ligando na tela. Passamos a dizer “e aí”, “fala, fulano/fulana”, “estava pensando em ti” ou até “não posso falar agora” para atender o telefone. Ficou cada vez mais frequente não atender também, dependendo do nome ali escrito, da falta de identificação ou do DDD do número.

A ironia dos dias de hoje é que a função inicial do telefone - proporcionar a façanha de conversar com uma pessoa distante através da fala - é a menos importante nos aparelhos modernos. Deixamos mensagens escritas, enviamos áudios unilaterais ou vídeos sobre qualquer bobagem. São gifs, memes, e tantos outros nomes que aprendemos muito rápido. O certo é que tudo se renova, mas a essência é se comunicar, trocar ideias, colocar a nossa opinião, provocar, seduzir, enfim, expressar nossa identidade através da interação. Desde a arte rupestre até os smartphones.


Texto originalmente publicado no meu antigo blog, em junho de 2018.

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