• Caroline Rodrigues

Coraçãozinho de EVA

Crônica publicada em 14 de maio de 2018 no meu antigo blog.


O mês das mães transcorria exatamente igual a todos os outros. Eu já vivia a emoção de ver meu filho “no palco” há seis anos. Todos eles permeados por aquele mistério sobre a apresentação escolar do dia das mães. Este ano, quando vinha para casa, meu filho só me relatava que haviam ensaiado um pouco. Além disso, que alguns colegas meninos ficaram rindo da forma como ele dançava. Tive uma conversa com ele sobre essas atitudes dos colegas e tudo parecia sob controle.

No sábado pela manhã, lá estava eu, de celular em punho para filmar mais uma apresentação escolar. Essas apresentações são realmente enfadonhas se você não está emocionalmente envolvido. Eu me lavo chorando. Sempre. Chega a ser ridículo. Dependendo do meu estado emocional, já começo a chorar nas apresentações anteriores. Nesse sábado, era o que estava acontecendo.

Como dizia, estava eu na primeira fila e a turma do meu filho entrou. As professoras arrumaram todos eles. Como meu filho é um pouco mais alto e um dos mais velhos da turma, ele geralmente fica no fundo. Eu já me acostumei a filmar e só ver uma parte do cabelo ou então ele aparecendo de vez em quando na gravação. Desta vez, ele ficou na segunda fila. A música começou a tocar, eu já estou com o olho cheio de lágrimas, o guri com os braços levantados, balançando até que algo inesperado aconteceu. Meu filho travou. Esse meu menino que sempre me emocionou com a sua expressividade, com seu carisma no palco, travou. De repente, parou de dançar, jogou o coraçãozinho de EVA longe e cruzou os braços. Percebi que ele estava muito irritado. Ele olhava para mim e eu pedia que ele dançasse, ainda filmando. Ele negava e batia o pé no chão. Até que ele começou a chorar compulsivamente e parei de gravar. Fiquei um tempo naquela angústia, sentindo que eu deveria fazer alguma coisa, mas com medo de atrapalhar. Nenhuma professora apareceu, mas eu não podia deixar meu filho chorando no meio da quadra, com a escola inteira olhando ele sofrer. Levantei e fui até ele. Perguntei o que havia acontecido e ele me disse, muito irritado, que ele não sabia mais a coreografia e que tinha estragado tudo. Falei que ele podia dançar como quisesse, tentei encorajá-lo, mas ele estava muito transtornado.

Tentei consolá-lo mais um pouco, mas não podia ficar no meio da apresentação das crianças. Então, peguei o coraçãozinho do chão, entreguei para ele e voltei para o meu lugar. Ele partiu o coraçãozinho, chorou mais um pouco e eu pedi que ele viesse se sentar ao meu lado. Abracei-o e ele dizia, inconsolável, que queria ir embora, que eu ia odiar ele agora, que ele tinha que ser perfeito e muitas outras coisas que, para mim, soavam horríveis.

Eu sou mãe desse guri. Eu deveria saber o que fazer. Eu deveria ter a solução perfeita, as palavras certas para fazer com que ele percebesse que aquilo tudo que ele estava dizendo era um absurdo e ele voltasse a sorrir. Mas não. Parecia que tudo o que eu dizia só piorava. Então só me restou fazê-lo sentar no meu colo e deixar que ele chorasse um pouco mais com seu rosto encostado no meu peito enquanto eu acariciava seus cabelos. Senti que aos poucos o choro ia cessando e o corpo, que antes estava rígido, ia amolecendo. Ele ficou assim por algum tempo, incapaz de enfrentar sua decepção, até que, munido de alguma força oculta, saiu correndo para brincar com os colegas.

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