• Caroline Rodrigues

Cof-Cof

Texto publicado no meu antigo blog em 30/06/2008, num mundo pré-pandêmico, em que não havia outras preocupações com tosse além dessas que relato aqui.


#crônica #tosse #escritacriativa #leiamulheres

Ilustração de Rupert Dolby

Estamos na fatídica época em que ela pode chegar e nos acompanhar por um tempo considerado, em geral, bem maior do que gostaríamos. É assim mesmo: a tosse aparece para todos e todas. Ela faz parte da história da humanidade.


Talvez você não tenha percebido, mas a tosse pode causar momentos de empatia entre os seres humanos. A máxima de que “quem está com tosse não vai ao médico e, sim, ao cinema/teatro” já foi devidamente comprovada. Quem nunca presenciou a cena: o sujeito, acometido de uma gripe, senta-se na última fileira do auditório (talvez porque lhe reste um pouco de senso de sociedade) e começa a tossir. Depois do terceiro acesso, uma pessoa qualquer no público olha para alguma outra na plateia e pronto: está feita a magia empática. Esta troca de olhares está no primeiro nível, e pode atingir até o “revirar de olhos sincronizado”, que é o mais alto grau de empatia.


Por outro lado, tossir pode ser um ato ilícito disfarçado. Descobri isso ao conversar com alguns estudantes. O moço ou a moça chega na aula, geralmente com um lencinho na boca, olhos demonstrando sofrimento, e diz “vim porque tinha prova, professora” cof-cof. A docente se compadece e pensa “mas que criatura dedicada!” e entrega as provas. É uma verdadeira sinfonia de tosses nos mais diferentes timbres e sequências. O que nem todo mundo sabe é que, em provas de múltipla escolha, cada tossida revela alguma resposta, bem debaixo dos óculos bifocais da professora.


Por certo que a tosse pode ser muito grave. Um vizinho da minha tia era uma espécie de tossidor crônico. Fumante ao que parecia desde o nascimento, era possível ouvi-lo tossir ininterruptamente por minutos. Estranhamente, nossa angústia não era com a tosse, mas com o silêncio depois dela. Sempre ficávamos na expectativa da tragédia até que ele voltasse a tossir. Na verdade, continua lá, 86 anos de idade e duas carteiras por dia.


Na juventude, só tinha uma coisa pior que estar gripado: era estar com tosse de cachorro. Assim a gente chamava aquela tosse gutural medonha. Era uma catástrofe social na adolescência. Qualquer receita era bem-vinda para parar de ouvir piadinhas: chá com mel, xarope, lenço com álcool no pescoço, leite morno antes de dormir, até o agasalho a gente levava.


Como professora, as situações variam dependendo do público que se está atendendo. Há alguns anos, lecionava em um cursinho de inglês e os alunos eram adultos. Peguei uma gripe danada, na época, mas achava que podia continuar trabalhando normalmente. Até o dia em que comecei a tossir e tive que sair da sala porque não conseguia parar. Na volta, os alunos estavam muito preocupados, até recomendando que eu ficasse em casa para me curar. Agora, em uma turma de sexto ano do ensino regular, as coisas são um pouco diferentes. No meio da explicação comecei a tossir. Meu rosto ficou vermelho, meus olhos começaram a lacrimejar, e a cada tossida eu me concentrava para tentar cessar. Alguns alunos me olhavam preocupados, “tu tá bem, sora?”, enquanto outro perguntava “sora, é pra copiar?” e um terceiro, “cala a boca, cara, não tá vendo que a sora tá mal?”, e assim por diante.


Dizem que existe um estágio avançado de constrangimento por conta da tosse. Em geral, este nível é atingido em idades mais avançadas. Parece que, depois de uma certa idade, existe a possibilidade de a tosse vir acompanhada de algo profundamente embaraçoso. Algo que nos faz repensar o grau de importância da tosse de cachorro em nossa existência. Se você ainda não sabe, prepare-se para o momento em que, ao tossir, você vai sentir o vergonhoso mijar-se.


E é melhor parar por aqui.

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