• Caroline Rodrigues

As Magdas, as Madalenas e as Marias

*Texto originalmente publicado em abril/2018 no meu antigo blog, mas parece que pouca coisa mudou, inclusive em relação ao assassinato de Mariele.



Óleo sobre tela. Los Angeles County Museum of Art, Los Angeles, CA, USA
Madalena Penitente. Georges de La Tour, 1635-37.

Não, senhoras e senhores. Não é que tudo agora seja machismo ou seja questão de gênero. É que, até então, NADA era. E (pasmem!) isso já estava nos incomodando há muito tempo.

São centenas de anos empenhados em nos calar, empenhados em nos colocar em um lugar determinado há séculos por sabe-se lá quem. Antes de o mundo ser do jeito que é por conta dessa história de Adão e Eva (essa “maldita pecadora”), as mulheres eram protagonistas em suas comunidades e, por isso, foram perseguidas e mortas. A maior falácia da humanidade exterminou muitas mulheres em fogueiras porque elas exerciam papéis de suma importância dentro da sociedade. A nova configuração do mundo, imposta por uma igreja formada somente por homens, não podia aceitar isso e então acionaram as fake news da época para difamar as bruxas. Sim, porque quando se procura a origem de tudo, é possível ver a mão de algum homem tremendo, se sentindo ameaçado pelo poder de uma mulher. Agora, as mulheres estão voltando ao protagonismo e estão… adivinha? Sendo perseguidas e mortas. #Marielle, presente!

E nessa história, contada somente por homens, é claro, também existem dois tipos de protagonistas mulheres. Maria, a que era pura e virgem e, por isso, boa e reverenciada por todos, e Madalena, a que era puta e oferecida e, por isso, má e escrachada por todos. Menos por Jesus, eu sei. Mas é que Jesus era um cara do bem, assim como muitos homens que eu conheço que também se erguem contra esses chiliques e pitis masculinos ao ter sua hombridade ferida. A questão é que eles acharam uma forma de determinar o valor da mulher e esse valor está intimamente ligado a sua sexualidade. Interessante isso, não? Porque, se pararmos para pensar, o momento de maior vulnerabilidade de um homem deve ser, provavelmente, durante o ato sexual, desprovido de consciência, de pudor, entregue ao poder da mulher e de sua vagina. “Opa, poder da vagina! Isso precisa ser contido! A gente molda essas mulheres para casar - virgens de preferência - e financia os puteiros para não ter cobrança nenhuma dentro de casa”. E desde meninas ouvimos essas histórias de homens que traem suas mulheres e histórias de mulheres que carregam a casa inteira nas costas, cheias de filhos, de louças e de roupas para cuidar. Ou não. Assistindo à série The Crown a gente vê que até a rainha da Inglaterra passou por isso, assim como tantas outras mulheres que ocuparam cargos importantes ou tiveram carreiras brilhantes. Aí há os que digam: "é que elas eram ocupadas demais, não tomavam conta de seus casamentos". Sempre há uma desculpa, ou melhor, uma forma de achar a culpa da mulher. Se o homem trai é porque está ocupado demais e precisa relaxar, ou porque sua mulher é ocupada demais e ele precisa relaxar. A mulher não precisa relaxar, não é mesmo? Até porque pouco homens sabem (ou fazem questão de saber) dar prazer a uma mulher. Gozar é um privilégio de poucas ainda. Gozar é dar poder para a vagina. Opa, já falamos sobre isso.

Então, como que uma mulher chega ao ponto de viver uma vida inteira sem gozar, sem fazer escolhas, achando que ela é menor do que o seu companheiro? A culpa deve ser dela né? É o que querem que você pense. Querem que você acredite que, como em todas as outras ocasiões, a culpa é da mulher. Tudo isso não passa de uma construção da nossa sociedade. Já desde a barriga da mãe nós aprendemos a determinar os destinos dessas crianças dependendo do que carregam entre as pernas. É só ouvir as histórias que nos contam sobre o orgulho da família quando nascia um filho varão. Existe até esse termo especial para um menino. Varão! Você conhece o termo para a menina? Nem eu.

Além disso, nosso inconsciente está recheado de pérolas e personagens femininas que são gostosas e burras ou são feias e inteligentes. Se são “normais”, são boas para casar. Não são nem muito feias, nem muito “bicho bom”, nem muito inteligentes, nem muito contestadoras. São as princesas recatadas e do lar. Se contestam, taca-le um “CAAAA-LAAAA-DA!” ao estilo Nazareno. Se ela abre o bocão, é para seduzir o dentista que não pode conter seu imaginário de homem ao ver a boca de uma mulher aberta. Ah, mas ela só abre a boca para dizer besteira, então “CALA A BOCA,- ” (vocês sabem muito bem quem). De preferência em um tom de voz bem agressivo e alto. Na “Escolinha”, é o menino que tem as resposta inteligentes, enquanto a menina vai apagar o quadro de saia bem curtinha, ou fica apavorada e desmaia quando se sugere qualquer assunto relacionado a sexo. Agora, se ela é safada e gosta de falar sobre sexo, ela não pode ter o padrão de beleza vigente. E por que todas as animadoras de auditório, fora o palhaço Bozo, que não por acaso usava fantasia, eram mulheres? Mulher leva mais jeito com crianças? “Senta lá, Cláudia!”

São tantos bombardeios de como devemos nos portar e o que devemos fazer da vida. Os meninos também sofrem pressão. São moldados para esse tipo de sociedade. Até quando isso? Deu, já chega. Ao invés de ficção científica com carros voadores, eu quero filmes sobre 2100 com igualdade de verdade. Que se seja gentil porque se quer, não porque ensinam que o certo é “damas primeiro”. Que a igualdade extrapole a ponto de os idiomas terem que cunhar novos termos para novas funções e novas práticas. Que não se generalize mais no masculino só porque sim. Que diante de uma plateia com 99 mulheres e um homem, ele se sinta contemplado quando alguém se dirigir a ele no feminino porque é assim que as mulheres têm vivido desde sempre. E que, mais importante, a gente possa viver em um mundo em que as próprias mulheres não venham brigar com outras mulheres pelos privilégios que os homens já têm.

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