• Caroline Rodrigues

As baratas, Clarice e eu

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Eu pensei muito em Clarice Lispector em 2020. As redes sociais festejaram os cem anos de nascimento da magnífica escritora com bastante euforia, editoras lançaram edições comemorativas e páginas celebraram compartilhando suas frases, apócrifas ou não. Era difícil não pensar em Clarice, naquele olhar de quem vê mais do que há. Como eu pensava em Clarice, eu pensava e precisava ler Clarice e ‘A paixão segundo G.H.’ já estava na minha lista.


Eu também pensei muito em baratas em 2020. Isso foi antes de iniciar a leitura de Clarice. Começou quando o calor de novembro deu as caras, elas estavam por todo lado, grandes, antenudas, vindas de algum lugar que as tratara muito bem no inverno. Pareciam dispostas a provar o que os humanos tanto admiram e temem nelas por sua resistência: elas vêm para ficar mesmo depois que não sobrar nenhum de nós sobre a terra.


Quando comecei a ler ‘A paixão segundo G.H.’, eu não dormia direito há três dias. Não era o cenário mais propício para se começar a ler um livro desses, agora eu sei. Li todo o primeiro capítulo e me senti dentro de uma caverna escura ou um labirinto, tateando o caminho. O que eu estou lendo, afinal? Respirei fundo e reli o capítulo inicial. Não adiantava, percebi que teria que ser assim, uma travessia num mar nem sempre tão calmo, dentro de um bote sem remos. Invejava a mão que G.H. tinha para segurar.


Fui adiante no livro, me remexendo na cadeira, suspirando, querendo fazer sentido, mas do que é que essa mulher tá falando, meu Deus? Até que a personagem encontra uma barata. Eu retirei os olhos do livro, olhei para cima e disse em voz alta: tá de brincadeira, né? (difícil não falar em Deus depois de ler esse livro).


Minha relação com minhas baratas foi um tanto diferente da que G.H. estabeleceu com sua barata grossa e velha. Eu não sei se minhas baratas eram velhas. Todas as três apareceram no meio da noite, caminhando sobre os meus braços enquanto eu dormia. Fui acordada com uma coceirinha, como se alguém tivesse pegado uma pena e passado nos meus braços para me acordar, de tão leves. Mas ao abrir os olhos, o que eu via era uma mancha escura se movendo rápido e, diferente de G.H., cujo grito lhe ficara batendo dentro do peito, o meu ecoava pelo quarto e as baratas eram atiradas longe por instinto. Foram três vezes em um mês e meio, em duas casas diferentes que estão a mais de 150 quilômetros de distância uma da outra. Eu estava convicta de que as baratas haviam colocado um alvo nas minhas costas. O que será que eu havia feito de tão errado para elas, além de ter matado várias de sua espécie? Eu não era a única e, mesmo assim, elas me perseguiram até outra cidade. Isso tudo foi antes de eu começar a ler e ver a palavra ‘barata’ impressa no romance me deu ainda mais certeza de que elas tinham uma estratégia infalível. Só não consegui definir aqui para quê.


Travei uma guerra contra os seres que andam de rojo. Elas estavam nas minhas panelas, nos meus rolos de papel higiênico, debaixo do sofá, dentro da gaveta de talheres. Corriam e se esgueiravam quando eu abria uma porta de armário. Comprei armamentos pesados; desinfetantes, inseticidas e iscas mortais. Fui eliminando uma a uma, retirando os rastros e o cheiro forte deixado por elas, me livrando da sua presença. Eu não queria mais nem ver uma imagem (impressa ou digital) de barata.

Se eu tivesse lido o livro antes de tudo, minha relação com elas teria sido diferente? Eu poderia encarar uma barata como G.H. encarou e encontrar em alguma delas motivos para questionar-me como ser humano? Provavelmente, não. G.H. é de Clarice e Clarice é transcendental e, por isso, eu fiquei sempre um passo atrás dela, na caverna escura, no labirinto ou em alto-mar, chamando e pedindo que alguém me ajudasse a entender o que estava escrito ali. Mas ninguém vinha. Talvez ali estivesse a resposta sobre aquela série de ataques, como eu poderia saber?


Por outro lado, pensei, deve ser isso o que chamam de fé. Confiar que você vai chegar a algum lugar, mesmo sem estar entendendo muita coisa. Mas os sentidos me escapavam, como as baratas correndo em direção aos cantos escuros da casa.


Depois de terminar a leitura, pensei que vou precisar reler todo o romance, umas três vezes no mínimo, para poder entendê-lo. Ou talvez seja justamente esse o problema. Será esse um texto para ser compreendido ou para ser sentido? Se eu não estiver tão envolvida com baratas, poderei ver outras camadas? Assim como o animal, a obra está cheia de cascas finas sobrepostas, difíceis de serem vistas, mas que uma unha é o bastante para erguê-las. Basta saber usá-la. Precisarei da coragem de G.H. e, depois, quem sabe, serei capaz de chegar à revelação sobre essa Paixão.

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