• Caroline Rodrigues

Amigas analógicas

Texto publicado no meu antigo blog, em julho de 2018.


Photo by Gemma Chua-Tran

Estive, esta semana, observando a nossa intensa vida social virtual. Como uma representante da era analógica, acabo sempre me recordando dos tempos em que tudo era diferente. Eu não me considero uma saudosista. Nunca utilizo aquelas frases cuja premissa é defender que no passado tudo era muito melhor. Porém, vejo que somos uma espécie de sobreviventes por termos nos adaptado a tantas mudanças.

Recordo-me que, na minha juventude, o ponto de encontro era o clube ou a loja de artigos gauchescos da mãe de uma amiga. A gente nem precisava marcar. Como a cidade era pequena, se as gurias não estavam num lugar, estariam noutro. A tarde passava voando. Nossas dúvidas, relatos e confissões se perdiam entre pilchas e rebenques. Em dias inspirados, saía muita bobagem, é claro, e ríamos de doer a barriga.

Lembro a tarde em que uma das amigas chegou comentando a capa da revista Capricho do mês de junho. Na foto, o modelo posava de costas, vestia uma calça jeans e segurava um pequeno buquê de flores, representando a surpresa que faria para a namorada. Todas chegaram à conclusão de que o moço era muito gostoso. Eu concordava sem pestanejar, com vergonha de admitir minha ignorância sobre o assunto. Creio ter sido a primeira vez que me vi na posição de apreciar o corpo masculino.

No clube, o tempo era dividido entre as paqueras e a prática de esportes. Aquelas paredes de tijolos à vista viram muitas intrigas, diversas paixonites e uma porção de amizades verdadeiras. Gostávamos de sentar no encosto dos bancos de madeira, com os pés no assento, para esperar o gatinho da vez passar. Era sempre o mesmo ritual: uma algazarra quando ele estava se aproximando, um silêncio sepulcral quando ele estava bem na nossa frente e nova algazarra quando ele se afastava. Ficávamos analisando todas as chances que a nossa amiga teria pela forma como ele passou, olhou, cumprimentou e tantos outros detalhes que agora são impossíveis de lembrar.


Baile de debutantes com minhas amigas analógicas.

Com o tempo, a leveza dos assuntos foi dando lugar à dureza dos conflitos da vida adulta. O trabalho, a faculdade e os relacionamentos exigiam cada vez mais de nós, provocando um inevitável e natural afastamento. A vida nos chamava a desempenhar papéis diferentes daqueles ao que muitas de nossas mães fora destinado. Gostávamos de falar sobre nosso espaço no mundo, sobre as viagens que faríamos, sobre encontrar um parceiro que nos compreendesse e tudo isso fazia a cidade encolher.

E foi o que aconteceu. Muitas escolheram viver em outras cidades, estados ou até países. A ironia disso tudo é que as amizades da era analógica podem ser acompanhadas graças à era digital. Pelas redes sociais conseguimos diminuir um pouco a distância que nos afastou. Conhecemos companheiros, companheiras, filhos, filhas e continuamos dividindo, mesmo a distância, nossos sonhos e inseguranças.

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