• Caroline Rodrigues

A feira por todos os lados

A pressa das redes sociais nos desafiam a escrever o mais rápido possível sobre um assunto. Eu sei que estou desafiando essa lógica, tocando num assunto que já é passado, novembro já acabou. Bom, quem sabe alguém ainda queira reviver aqueles momentos tão lindos comigo...


Depois do primeiro dia de feira do livro eu comecei a escrever um texto sobre ter ouvido a Isabel Allende. Só que no dia seguinte eu ouvi a Rosa Monteiro e quis escrever sobre aquela experiência também. E assim foi; cada dia terminava com um acúmulo de sentimentos borbulhando por dentro da pele. Se eu abrisse minha boca, uma cascata de palavras desordenadas sairia, ideias brotariam da ponta dos meus dedos, eu já não era mais aquela que se olha no espelho, eu era uma multiplicidade de vozes e ideias. Eu via um pedaço de cada uma daquelas pessoas em mim.

Como se passa incólume ouvindo falas que reverberam dentro de mim depois desses últimos anos, em que as palavras alheias pareciam me cercar, me intimidando? Como deixar de ser um bichinho acuado? As janelas da praça virtual se abriram e refletiram aqui dentro da minha caixinha. Pensei em seguir aquele pequeno raio de sol. No caminho, ele se fortalecia. Essa luz era direcionada por mulheres, negros, indígenas, trans, gays, lésbicas e pessoas cheias de empatia pelas questões urgentes deste nosso mundo. Pessoas contestando o que está instalado no centro de nosso governo, que vem despedaçando nossa realidade de forma maldosa para representar interesses econômicos e de elite. Existe uma resistência borbulhando, trabalhando e eu preciso me agarrar a essa ideia.

Foi isso que eu vi nesta feira do livro virtual. Escritoras e escritores, pessoas preocupadas em ver a literatura como uma ponte para a tessitura (obrigada, Eliane Brum) de uma sociedade diferente. À exceção de uma certa escritora que acha que a escrita dela não vai mudar o mundo e eu concordo com ela. O que ela escreve não vai mudar nada mesmo. Para que perder tempo lendo ela? Eu não perco o meu.

Eu prefiro encontrar a voz de Ailton Krenak me dizendo para voltar para casa. Prefiro ouvir a coragem da Rosa Monteiro, que enfrenta o luto para nos ajudar a lidar com “a ridícula ideia de nunca mais” ver alguém. Prefiro ouvir como a Kiusam aprendeu desde pequena a lidar com o racismo e transformou essas experiências em histórias de empoderamento para crianças. Saber da paixão da portuguesa Alexandra pelo Brasil, chegando ao ponto de quase não admitir que a escrita dela seja considerada literatura estrangeira.

Existe feira mais perfeita para termos o Jefferson Tenório como patrono? O primeiro patrono negro da feira? Acho que não. Por um instante eu pensei, “que pena”, mas agora vejo por outra perspectiva. A visibilidade que este evento teve e, na verdade, continuará tendo porque está tudo disponível online, foi enorme. Essas vozes foram alçadas a lugares muito mais distantes. Os encontros dele, falando com sua voz calma, distribuindo sua sabedoria e generosidade, foram incríveis. Me cobri com a poesia de Oliveira Silveira, em poemas lidos pelo patrono, por Lilian Rocha e por Antonio Hohlfeldt. Este último, na minha lembrança como o primeiro autor que conheci na vida, quando ele foi visitar a escola em que eu estudava. A feira e os livros conectam todas as fases da nossa vida.

A pandemia retirou os livros da praça, impediu os encontros face-a-face, mas, por outro lado, foi possível acompanhar todas as atividades, sem o risco de ficar sem uma senha ou de encontrar o auditório lotado. Além disso, para quem não é de Porto Alegre, que nunca consegue estar lá todos os dias, pôde estar na praça virtual o tempo todo; foi o meu caso.

Claro que teve um lado muito ruim: minha lista de desejos de livros triplicou. Acredito também que tenha prejudicado a venda das editoras nesta época. É diferente estar com o livro na mão, saber que você vai poder pedir uma dedicatória depois da fala. Eu acabei não comprando livros através da feira e não sei dizer o motivo. É louvável todo o esforço para fazer funcionar essa engrenagem e só o fato de ela ter acontecido de forma virtual e com tanta qualidade já é um grande feito. No entanto, achei que algo na venda dos livros precisava de ajuste. Espero que eu tenha sido a única a sentir-se assim.

Por anos, como sou do interior ou por ignorância mesmo, a feira do livro era um monte de gente disputando espaço em frente às bancas e as filas de autógrafos. Eu não fazia ideia de tudo o que acontecia no “submundo” literário. Descobri há bem pouco tempo e converso com muitas pessoas que ainda não fazem ideia do número de atrações ofertadas durante os dias de feira. Eu fiquei anos sem ir à feira, chateada com aquele amontoado de gente, nunca fui chegada em multidão. Achava que as bancas vendiam sempre os mesmos livros. Só que isso era puro desconhecimento meu. É como dizer que o Brasil não produz filmes de qualidade porque você só acompanha o que a mídia popular divulga. Quando eu procurei saber mais sobre a produção e o mercado literário brasileiro comecei a buscar as editoras certas, os livros que me tocam ou fazem sentido para mim.

É preciso descobrir a riqueza da feira, de autores, de temáticas. Unir-se à resistência sendo tecida nas linhas escritas. Buscar uma voz para iluminar o caminho para virarmos essa seta de curva acentuada à direita de uma vez por todas.


*Ainda há tempo de assistir à programação, é só acessar o canal da Feira do Livro no YouTube.

9 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo