• Caroline Rodrigues

A Escrita Revolucionária de bell hooks - Tradução

#bellhooks #feminismonegro #feminismo #condiçãodamulher

O texto a seguir é uma tradução do artigo publicado na revista The New Yorker, escrito por Hua Hsu.



Através de sua erudição e crítica, hooks, que morreu esta semana, reescreveu nosso entendimento sobre feminismo negro e condição feminina e ofereceu a uma geração de leitores uma nova forma de olhar para o mundo.


Por Hua Hsu


15 de dezembro de 2021


Antes de se tornar bell hooks, uma das grandes críticas culturais e escritoras do século vinte, e antes de inspirar gerações de leitoras - especialmente mulheres negras - a entender seus próprios poderes transformadores, ela era Gloria Jean Watkins, filha de Rosa Bell e de Veodis Watkins. hooks, que morreu nesta quarta-feira, foi criada em Hopkinsville, uma pequena e segregada cidade no Kentucky. Tudo o que ela se tornaria começou lá. Ela nasceu em 1952 e frequentou escolas segregadas até a faculdade; foi na sala de aula que ela, com sede de aprendizado, começou a vislumbrar as possibilidades libertárias da educação. Ela amava filmes, porém a forma com que o cinema nos deixava ocasionalmente prisioneiros de mesquinharias e estereótipos a impeliu a se perguntar se havia maneiras de reagir às imagens em movimento na tela. Seu pai era zelador e sua mãe trabalhava como empregada de famílias brancas; o trabalho deles, repleto de pequenas indignidades, colocou em foco o poder diário de um olhar atravessado e indelicado ou de um revirar de olhos. Um novo mundo nasce desses pequenos gestos de resistência - de afirmar o espaço que é seu de direito.


Em 1973, Watkins se formou na Stanford; a diplomada de dezenove anos já tinha concluído um esboço de uma história visionária sobre feminismo negro e condição feminina. Nos anos setenta, ela seguiu para a pós-graduação na Universidade de Wisconsin-Madison e na Universidade da Califórnia, Santa Cruz. No final dos anos setenta, ela começou a publicar poesia com o pseudônimo bell hooks - um tributo à sua bisavó, Bell Blair Hooks. (As letras minúsculas eram usadas para diferenciá-la de sua bisavó e para sugerir que o que importava era a substância do trabalho, não o nome da autora.) Em 1981, como hooks, ela publicou o trabalhou que ela iniciou em Stanford, "E eu não sou uma mulher? Mulheres Negras e Feminismo", um livro pioneiro que era, de uma só vez, uma história do legado da escravização e a contínua desumanização das mulheres negras bem como uma crítica da política revolucionária que tinha surgido em resposta a esses maus-tratos - e que, não obstante, colocava a psique masculina no centro. A verdadeira liberação, ela acreditava, precisava considerar como a classe, a raça e o gênero são facetas de nossas identidades que estão inextricavelmente ligadas. Somos todos essas coisas juntas ao mesmo tempo.


Nos anos oitenta e noventa, hooks lecionou na Universidade de Yale, na Oberlin College e na City College de Nova Iorque. Ela era uma acadêmica e escritora prolífica, que publicou cerca de quarenta livros e centenas de artigos para revistas, periódicos e jornais. Dentre suas ideias mais influentes estava a do "olhar opositivo". As relações de poder estão codificadas na forma como olhamos uns para os outros; as pessoas escravizadas eram então punidas por meramente olhar para seus donos brancos. A noção de uma forma de olhar rebelde e de enfrentamento de hooks procurava causar um curto-circuito no olhar masculino ou no olhar branco, o qual pretendia colocar as espectadoras negras como passivas ou, de alguma forma, como "outras". Ela estimava o poder de criticar ou fazer arte a partir desta perspectiva desafiadoramente negra.


Eu me deparei com o trabalho dela nos anos noventa, durante uma era fértil de estudos culturais negros, quando parecia que a sua revista alternativa ou independente típica era tão rigorosa quanto uma monografia acadêmica. Para hooks, escrever na esfera pública era somente uma utilização de sua mente para alguma preocupação mais imediata, fosse o seu assunto a Madonna, o Spike Lee ou, em uma peça memoravelmente devastadora, o "Kids", de Larry Clark. Ela estava escrevendo em um momento em que o estudo sério da cultura - garimpo de subtextos, peneira de pistas - ainda era uma empreitada desordenada. Como leitor asiático-americano, eu estava encantado com a forma como críticas como as de hooks recorriam a seus próprios históricos e amizades, não para achatá-los dentro de algo universal, mas para nos lembrar que nós todos indexamos uma vasta, geralmente contraditória, gama de gostos e experiências. Sua crítica sugeria um cérebro pulsante que não descansava tentando fazer sentido sobre como uma obra de arte a fazia se sentir. Ela modelou um raciocínio: seguindo os ecos distantes da supremacia branca e da resistência negra ao longo do tempo e identificando seus legados nos trabalhos de Quentin Tarantino ou no filme "Falando de Amor", de Forest Whitaker.


Ainda assim, seu trabalho - livros como "Reel to Real" ou "Art on My Mind" (nenhum deles traduzido no Brasil ainda), que têm sobrevivido décadas de releituras e destaques - também modelaram como simplesmente viver e respirar no mundo. Ela fez elogios com entusiasmo - especialmente em relação ao "Filhas do Pó", de Julie Dash, um filme referenciado inúmeras vezes em seu trabalho - e ela nunca se esqueceu de como é ficar boquiaberta ao se deparar com uma obra de arte comovente. Ela não conseguia negar o entusiasmo ao apagar das luzes e nos preparamos para nos render à performance. Mas ela fazia exigências no mundo. Ela acreditava que a crítica vinha de um lugar de amor, um desejo de coisas pelas quais vale a pena se entregar.


Ela atingia pessoas e isso é o que uma geração de nós queria fazer com nosso trabalho intelectual. Ela escreveu livros infantis; ela escreveu ensaios que as pessoas leram em salas de aula de faculdades e de prisões da mesma forma. Quando eu peguei "Reel to Real", eu repensei o que um livro poderia ser. Era uma coleção de seus ensaios sobre filmes, dissecações astutas de "Paris is Burning" ou de "Despedida em Las Vegas". Mas o miolo consiste de entrevistas com cineastas como Wayne Wang e Arthur Jafa, onde encontra-se uma dimensão diferente da persona crítica de hooks - curiosa, empática, buscando camaradas. "Representação importa" é uma frase vazia hoje em dia e é fácil esquecer que mesmo nos anos oitenta e noventa ninguém sentia que era suficiente. Ela sabia ser bastante afiada em resistir às refrações banais do mercado da negritude ou da condição da mulher que representam progressos fáceis e minguados. (Um de seus trabalhos mais famosos e recentes foi um ensaio, em 2016, sobre a autocomoditização de Beyoncé, que provocou a ira dos fãs da cantora. Ainda assim, se o ensaio for entendido dentro de um contexto mais amplo da vida e do projeto intelectual de hooks, há provavelmente alguns pedaços sobre a Beyoncé cheios de muita admiração e amor).


Estes tempos têm sido particularmente penosos para críticos que chegaram à idade adulta nos anos oitenta e noventa, agora que gigantes como hooks, Greg Tate e Dave Hickey faleceram. hooks era uma crítica brilhante e dura - sem dúvida, sua morte vai inspirar muitas revisitações de trabalhos como "E Eu Não Sou Uma Mulher", "Olhares Negros" ou "Outlaw Culture". Ainda assim, ela era também uma memorialista e poeta deslumbrante. Em 1982, ela publicou um poema intitulado "na questão dos egípcios", em Hambone, um periódico no qual ela trabalhava com seu companheiro na época, Nathaniel Mackey. Ele diz:


corpos ancestrais

enterrados na areia

flores preciosas de sol

impressos em um livro de memórias

eles atravessam a perda

e dão nessa ternura imóvel

varridas por ventos escassos

emergindo na passagem aquosa

além da morte


Em 2004, hooks retornou ao Kentucky para lecionar no Berea College, onde ela também fundou o Instituto bell hooks. Ao longo das duas últimas décadas, a crítica publicada de hooks saiu dos filmes e da literatura e se voltou para relacionamentos, amor, sexualidade, sobre como os membros de uma comunidade permanecem responsáveis uns pelos outros. Viver juntos sempre foi um tema no trabalho de hooks, embora agora a intimidade se tornou um assunto, não o contexto. Muito parecido com o falecido ativista e organizador asiático-americano Grace Lee Boggs, que se voltou para a jardinagem comunitária nos seus últimos anos, os escritos do século vinte e um de hooks sobre amor como "uma ação, uma emoção participativa" e companheirismo foram proféticas, um retorno à base para tudo o que é significativo. Os sistemas políticos e sociais ao nosso redor são desenvolvidos para obstruir nosso sentido de estima e nos fazer sentir menores. Contudo, a revolução começa dentro de cada um de nós - nas demandas que nós assumimos contra o mundo, na batalha diária contra o niilismo.


"Se alguém realmente me pedisse para eu me definir", ela disse a uma revista budista no começo dos anos noventa, "eu não começaria pela raça; não começaria pela negritude; não começaria pelo gênero; não começaria pelo feminismo. Eu começaria desnudando o que fundamentalmente informa minha vida, que é o fato de eu ser uma pessoa no caminho da busca. Eu penso no feminismo e penso nas lutas anti-racistas como parte disso. Mas onde eu me encontro espiritualmente é, com determinação, em um caminho sobre o amor".


Hua Hsu é um escritor membro do The New Yorker e autor de "A Floating Chinaman: Fantasy and Failure Across the Pacific".


Leia o texto original em inglês aqui. Tradução de Caroline Rodrigues.

3 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo